A família do candidato pode aparecer na sua publicidade



As campanhas eleitorais no Brasil, contrariamente às dos EUA, não têm o hábito e relutam muito em envolver a família do candidato na sua publicidade. Talvez ainda predomine, entre nós, a concepção tradicional e latina da política, como uma atividade masculina e adulta.

Barbara Bush apareceu em um comercial de campanha para ajudar seu marido George Bush

A família, em especial a mulher do candidato, nesta concepção, deve ficar fora da política, protegida num “território proibido” à campanha. Com a presença cada vez maior da mulher em todas as áreas profissionais, e, na política, não apenas em cargos legislativos, mas também nos executivos, esta concepção tradicional está dando lugar à outra mais moderna.

Entretanto, estamos ainda muito distantes da intensidade de participação dos familiares em campanhas eleitorais que ocorre nos EUA. A cada eleição presidencial, a presença feminina cresce, quando comparada com eleições anteriores.

Em 2002, por exemplo, Roseana Sarney chegou a polarizar com Lula nas pesquisas de intenção de voto; Serra foi levado a escolher Rita Camata para sua companheira de chapa; e Patrícia Pillar ocupou um espaço próprio e de grande impacto favorável na candidatura de Ciro Gomes.

No Brasil, em eleições estaduais e municipais, para o executivo e legislativo, ainda não se descobriu, nem explorou, o enorme potencial político representado pela família do candidato, e, de modo muito especial, pela esposa do candidato. Ninguém está mais próximo do candidato, mais autorizado a falar em seu nome, mais credenciado para defendê-lo ou promovê-lo, que a sua esposa.

Nos EUA, para citar apenas o caso da família Clinton, a esposa do Presidente, Hillary, por mais de uma vez- primeiro na campanha e depois na Casa Branca- fez pronunciamentos pessoais em defesa de seu marido, que foram decisivos para a sua vitória e depois para a sua permanência no cargo.

Nesta coluna, vamos ilustrar, com o comercial de Bárbara Bush, esposa do Presidente George Bush (pai), um tipo de peça publicitária protagonizada pela esposa do candidato. Trata-se de um comercial produzido para a campanha presidencial de 1988, em que Bush concorria contra Dukakis do partido democrata, e sobre a qual já reproduzimos várias peças e comentários.

Aquela eleição ficou marcada como particularmente agressiva, um marco histórico no que se chama de “campanha negativa”. Bush, com seu chefe de campanha Lee Atwater, usou em grande escala e com êxito, a “campanha negativa” contra Dukakis, vencendo a eleição.
Qual era o problema?

A imagem de Bush (pré-existente) era de uma pessoa fria, aristocrática, superior, distante das pessoas comuns

O problema residia no fato de que a campanha negativa, por mais eficiente que venha a ser para derrotar um adversário, tem os seus custos para quem a pratica. A imagem de Bush (pré-existente) apresentava-o como uma pessoa fria, aristocrática, superior, e distante das pessoas comuns.

A campanha negativa contra Dukakis agregara a esta imagem os atributos de um político agressivo contra seu adversário, ao ponto da crueldade. (Confira mais detalhes em O Comercial Willie Horton derruba Dukakis).

Para amenizar esta imagem, torná-la mais humana, “a família entrou em campo” com Barbara Bush apresentando um comercial no qual ela descrevia seu marido e manifestando seu desejo de que os americanos vissem “o George” como ela o via. Neste comercial foi usado como locutor o famoso artista de Hollywood Charlton Heston.

O Comercial

O comercial abre com o som de uma música alegre e sincopada sendo tocada ao piano em off enquanto uma menina pequena aparece no vídeo correndo e, com o recuo da câmera, Bárbara e George são vistos brincando com os netos. Seguem-se cenas de um picnic de família, e ouve-se a voz de Bárbara dizendo:

“Eu gostaria que as pessoas pudessem vê-lo como eu o vejo. Como milhares de pessoas o vêm.”

Aparece Barbara Bush falando para a câmera e dizendo:

“Mas vocês sabem, eu sempre adorava aquele tempo em que alguém diria a George: ‘Como é que você pretende concorrer à Presidência, se você não tem uma base eleitoral fixa?'”. Corte rápido para a cena de George Bush brincando com os netos depois cozinhando, enquanto Barbara continuava, em off:

Michael Dukakis acabou derrotado por George Bush na corrida eleitoral norte-americana

“E George dizia: Bom, você sabe, eu tenho uma família muito, mas muito grande mesmo, e além disso, tenho milhares de amigos”. E, é verdade, ele tem mesmo.”

Corte para fotos de Bush num porta-aviões, nas Nações Unidas, fazendo o juramento de vice-presidente, junto com Margareth Thatcher, junto com uma mulher pobre de origem eslávica, com Walenski, seguidas de cenas filmadas de Bush atirando a neta para o ar e beijando-a. Enquanto esta seqüência de fotos e cenas filmadas é apresentada, ouve-se, em off, a voz de Charlton Heston dizendo:

“Por mais de 40 anos, George Bush enfrentou todos os desafios que o seu país e o mundo lhe puseram pela frente. A verdade é, quanto mais você conhece George Bush, mais você descobre que talvez ninguém, neste século, está mais preparado do que ele para ser presidente dos Estados Unidos”

Concluída a locução, aparece letreiro superimposto à tela com a frase: “George Bush uma liderança experiente para o futuro da América”.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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