Caçadores de boatos revelam como desvendar mentiras na internet

Captura-de-Tela-2018-03-05-às-23.55.37Precursores do combate às mentiras que circulam na web, Edgard Matsuki e Gilmar Lopes desvendam fake news muito antes do surgimento desse termo.

O E-Farsas, de Gilmar, investiga rumores desde 2002, e o Boatos.org, de Edgard, se dedica à tarefa desde 2013. Para ambos, o assunto que está em voga no momento é o que chama atenção dos fomentadores de fake news.

Política e saúde são assuntos que geram muitas mentiras, disseram na entrevista concedida a Patrícia Figueiredo, repórter do Truco, projeto de checagem da Pública.

O papo na Casa Pública tratou também do processo de trabalho dos entrevistados, das mentiras mais absurdas com as quais se depararam e como as redes contribuem para a desinformação, ainda mais em ano eleitoral.

Patrícia Figueiredo – Como vocês começaram e como funciona o site de vocês? Como é o dia a dia?

Gilmar Lopes – Eu comecei em 2002 com o e-Farsas.com. Curiosamente, no dia 1º de abril, o Dia da Mentira. Mas ele surgiu um pouquinho antes, quando as correntes por e-mails ainda eram muito fortes. Eu recebia muitos e-mails com o assunto “repasse para o maior número de pessoas”, “aquela menina está com câncer, para cada e-mail repassado, a América Online vai ajudar com 5 centavos”. E eu repassava para as outras pessoas achando que estava fazendo uma boa ação. Um dia resolvi pesquisar: “Será que é verdade mesmo isso?”.

Entrei em contato com a AOL e era mentira a história. Foi a partir dessa pesquisa que comecei a falar para os meus amigos: “Olha, isso aqui é mentira por causa disso e disso”. E os amigos começavam a mandar: “Já que você é espertão, vou começar a te mandar umas fotos para você ver se é verdade”. Um dia resolvi juntar tudo em um endereço e criei o e-Farsas.com. A partir daí venho fazendo esse trabalho, que na época não tinha nem nome. Agora, tem o trabalho de “fact-checking”, e o boato se tornou o “fake news”. Mas, na minha época, quando a internet era um mato, não tinha um nome. A ideia do site é mostrar que qualquer um pode usar a própria internet como ferramenta para desmentir as histórias que circulam nela.

Edgard Matsuki – O meu trabalho começou 11 anos após o do Gilmar. Em 2012, eu trabalhei como jornalista de tecnologia no UOL, em São Paulo, e depois fui para Brasília trabalhar na EBC. No meio da apuração das pautas, as pessoas já compartilhavam muitas notícias falsas na internet. Ao mesmo tempo, eu não via tantas fontes jornalísticas, por assim dizer, que desmentiam as histórias. Mas ninguém da grande mídia acreditava que desmentir boato poderia se tornar conteúdo jornalístico. Além de ficar incomodado, eu queria ter um projeto de jornalismo para chamar de meu. Surgiu a ideia bem despretensiosa em 2013. Eu não tinha a mínima ideia da dimensão que as fake news poderiam tomar no sentido de influenciar a opinião pública e as pessoas nas eleições.

Patrícia Figueiredo – Como vocês conseguem administrar a quantidade de mensagens e sugestões que recebem diariamente?

Gilmar Lopes – O meu método é o seguinte: eu espero um pouquinho para saber se tem muita gente compartilhando. E se tem muita gente pedindo para eu pesquisar a respeito do assunto. Aconteceu há poucos dias uma informação dizendo que o Sylvester Stallone tinha morrido. Junto com essa notícia da morte, colocavam umas fotos dele já bem velhinho e debilitado. Na verdade, isso foi tirado de um papel que ele fez no filme Creed 2. Quando recebi essa notícia a primeira vez no WhatsApp, fui procurar no Google, mas ainda não estavam falando dela. Pensei: “Eu vou esperar um pouquinho porque pode ser que foi só o cara que inventou e passou para mim”. Mais tarde já estava todo mundo falando sobre isso.

Edgard Matsuki – Tanto o Gilmar quanto eu, por conta das nossas outras atividades profissionais, temos um número limitado de boatos que conseguimos checar para desmentir. Eu faço uma mensuração de quanto essa história está circulando antes mesmo da fase da checagem. Eu uso algumas métricas, como buscar no Google, buscar no Facebook, verificar o quanto as pessoas estão pesquisando ou mesmo o número de mensagens. Tenho três smartphones no momento só para isso e recebo uma média de 500 mensagens por dia.

Gabriela Nogueira – As fake news de fato podem alterar a opinião de alguém, ou quando ela compartilha, independentemente de ser falsa ou não, isso já não reflete uma visão de mundo que a pessoa tem?

Gilmar Lopes – Muitas vezes a pessoa compartilha para tentar provar um ponto de vista dela. Tem gente que fala: “Não falei, esse cara aí ó, bem que eu falei”. Ou tem gente que até faz assim: “Pelo sim, pelo não, não sei se é verdade, mas eu vou compartilhar assim mesmo”. Acredito que muita gente compartilha, primeiro, para fortalecer o ponto de vista e para tentar modificar o ponto de vista da outra pessoa.

Patrícia Figueiredo – No Truco, a assessoria é sempre o primeiro passo. A gente acha muito importante avisar a pessoa de que ela está sendo checada. Paralelamente, a gente procura outras fontes. À vezes, não encontramos algum dado que deveria estar em formato aberto. A gente tenta evitar e pede os dados para a assessoria, pressionando para que eles sejam públicos.

Gilmar Lopes – Alguma resposta muito bem dada por assessoria já derrubou uma checagem de vocês nessa primeira fase?

Patrícia Figueiredo – Não derrubou, mas virou um “verdadeiro”. Eles informam de onde veio a informação e gente coloca lá. Quais são os hits do site? Quais boatos têm mais acessos? Existem nomes que vocês sabem que vai bombar, vai ter muito acesso?

Gilmar Lopes – Pabllo Vittar! Ele é uma das vítimas de boatos porque ele está em alta. Como a gente falou aqui, o assunto que está em alta é sempre ferramenta, -matéria-prima para fake news.

Edgard Matsuki – Juro que tentei puxar pela memória qual foi o maior hit de 2014. Apesar das eleições, foi uma teoria da conspiração que falava que o Brasil tinha vendido a Copa para a Alemanha.

Fonte: Pública – Agência de Jornalismo Investigativo

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