Como o eleitor se informa e organiza informações para decidir seu voto II

Em termos econômicos, o processo de procurar, analisar e avaliar a informação política acarreta um custo: um investimento de tempo e de energia. Por outro lado, o retorno deste investimento é pequeno e desproporcional ao seu custo.

Atendimento à saúde pública leva o eleitor a conclusões sobre o tema. Por exemplo, a saúde da economia do país tem mais efeito nas vidas das pessoas do que se a mesma pessoa escolheu certo o local onde passar suas férias. Mas o tempo gasto para decidir onde passar as férias costuma levar a decisões acertadas, enquanto que o tempo dedicado a entender e acompanhar a economia nacional, não necessariamente conduz a decisões acertadas, embora exija muito mais tempo e energia.

Em outras palavras, o gasto de tempo e energia para decidir sobre matérias próximas a vida da pessoa, e cujo resultado depende apenas dela, produz uma relação muito satisfatória entre investimento e retorno (é a típica situação do consumidor individual).

Já o tempo e energia gastos para decidir sobre matérias mais remotas da vida individual, e, portanto, muito mais complexas, e que dependem de uma conjugação multitudinária de vontades, produz uma relação de investimento/retorno muito pouco satisfatória.

Portanto, para o indivíduo racional, não há incentivos muito poderosos para levá-lo a buscar informações, acompanhar a política, analisar a conjuntura e avaliar estes elementos para uma decisão.

Como então o indivíduo comum adquire informações sobre a política que lhe permita decisões racionais? Em primeiro lugar, uma razoável quantidade de informações são adquiridas na vida diária.

Não é necessário ser economista para saber se a economia está andando bem ou mal, ou razoavelmente. Os preços dos gêneros e do combustível, a facilidade/dificuldade de conseguir emprego, a taxa de inflação, a instalação de fábricas, os juros baixos/altos ao consumidor e outras informações deste mesmo nível fazem parte da vida diária das pessoas, e como tal, são obtidas pelo simples ato de viver sua vida individual.

Também na vida diária se adquire informações sobre questões de segurança. As pessoas conhecem outras que já foram assaltadas, ou vitimadas pela violência, sabem quais as regiões e bairros da cidade que são mais perigosos, os jornais e noticiosos apresentam os casos mais violentos, e assim conseguem, ao processar estas informações, uma idéia bastante clara sobre a situação da segurança pública nas suas comunidades.

Informações sobre saúde também são adquiridas na vida diária e nos contatos interpessoais. Procedimentos preventivos, como as campanhas de vacinação, informações sobre riscos associados a certos hábitos (como o fumar, comer comidas gordurosas etc), o tipo de atendimento dado em postos públicos de saúde, em hospitais, a facilidade/dificuldade de conseguir atendimento médico, exames e medicamentos, e, assim como na segurança, as pessoas analisando estas informações, provindas da vida diária, chegam a formar uma idéia clara sobre as condições gerais do sistema de saúde.

Segurança é um tema de campanha e assunto que, em geral, eleitor domina
O mesmo valeria para outras questões que igualmente freqüentam os programas dos candidatos, e se constituem em temas de campanha, como: educação, emprego, habitação, saneamento, trânsito, estradas e vias públicas, limpeza, etc.

Portanto, o mero fato de ser um consumidor de bens e serviços, de transitar pelas ruas da sua cidade, de estar empregado ou estar buscando um emprego, de ter filhos em escolas, etc, já faz com que uma ampla gama de questões políticas entrem na sua vida, sem que o indivíduo tivesse que desenvolver um interesse específico pela política, e tivesse que gastar tempo e energia para buscá-la e analisá-la.

Em segundo lugar, os noticiários da mídia também entram na vida das pessoas, no seu cotidiano. A maioria das pessoas assiste TV e grande parte destes assiste aos noticiários da TV.

O mesmo vale para o rádio, e, em muito menor medida, para os jornais. Nos EUA, o tempo dedicado diariamente para assistir notícias na TV, rádio e jornais é superior a 30 minutos. No Brasil, não temos estatística similar, embora possamos imaginar que, para os segmentos de nível médio e alto de renda e escolaridade, os resultados não deverão ser muito diferentes.

A mídia, além disso, desempenha duas funções adicionais:

(1) as suas informações interagem com as informações colhidas pela experiência da vida diária, ora confirmando e conferindo-lhe uma dimensão que as pessoas não imaginavam, ora conflitando com elas;
(2) as suas informações são “linkadas” com a dimensão política. Quando noticia um crime, além da matéria sobre o crime, há entrevista com o secretário de Estado, ou com um político, ou o próprio comentarista aproveita a oportunidade para dar-lhe uma dimensão política.

Mais que isto, para a mídia, os governos – local, estadual e nacional – são assuntos permanentes, tanto aqueles que integram o governo, como aqueles que contestam o governo. As questões públicas, tratadas pela mídia, envolvem o governo e a classe política que gravita em torno dele.
Como se vê, a vida diária, com a sua ampla trama de relações interpessoais, assim como o consumo natural das notícias da mídia, igualmente diária, já oferece ao eleitor médio, uma boa dose de informações sobre questões políticas, que se constituirão na pauta das campanhas eleitorais.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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