Como o GDF chegou ao colapso financeiro?

Um mix de incompetência, corrupção, comodismo e politicagem, no pior sentido da palavra, ajudam a explicar a atual situação financeira do Distrito Federal, segundo especialistas ouvidos pelo Fato Online.

O pacote de medidas anunciado pelo governador Rodrigo Rollemberg (PSB) na semana passada jogou por terra a insistente ideia de que Brasília é uma ilha da fantasia, ainda tão presente no imaginário popular.

Ao se dizer obrigado a reajustar até mesmo o preço cobrado nos restaurantes comunitários, o governo assumiu, sem eufemismos, a deterioração das contas do Distrito Federal, planejado para ser modelo de eficiência e gestão.

Mesmo diante de condições infinitamente mais confortáveis do que a de outras unidades da Federação, usufruindo, inclusive, de recursos federais para bancar a saúde, a segurança e a educação, os governantes da Capital Federal conseguiram a façanha de secar os cofres públicos.

A receita anual em torno de R$ 35 bilhões – cerca de R$ 12 mil per capita – para uma localidade das proporções do Distrito Federal é considerada mais do que suficiente. A atual situação financeira nos leva a crer, sem muito esforço, que os governos gastaram muito mal.

“Recursos existem. O DF tem uma capacidade de arrecadação grande, é a única unidade com Fundo Constitucional exclusivo e não consegue fazer frente aos gastos? Não dá para entender”, inquieta-se Júlio Miragaya, vice-presidente do Cofecon (Conselho Federal de Economia).

Mais até do que o do Rio Grande do Sul, que virou a “Grécia brasileira”, o caso do DF é crítico, justamente porque, em tese, tinha tudo para dar certo do ponto de vista orçamentário. Talvez por isso a insatisfação da população diante dos aumentos anunciados se mostre mais intensa.

Alexandre Fonseca/Fato Online

Erros

Um mix de incompetência, corrupção, comodismo e politicagem, no pior sentido da palavra, ajudam a explicar como o DF enveredou pelo caminho do colapso financeiro, na opinião de especialistas ouvidos pelo Fato Online.

A sucessão de erros acumulados ao longo dos mandatos foi tornando a lógica de Brasília muito parecida com a do restante do país, mesmo com a cidade tendo um potencial indiscutível para fazer diferente.

“O Brasil ocupou Brasília”, define o cientista político Leonardo Barreto, fazendo uma analogia ao avaliar que a maior renda per capita do país e uma estrutura administrativa aparentemente mais simples não livraram a Capital Federal das mesmices nacionais no que diz respeito à gestão.

Desde o início da cidade, na década de 1960, as autoridades demonstraram dificuldades crônicas de planejamento. Conduzido por sucessivas gestões temerárias, o DF inchou rapidamente, no mesmo ritmo acelerado em que a desigualdade social se alargou.

“Apesar de Brasília ter sido planejada para ser um farol de modernidade, o fato é que, aos poucos, a cidade foi sucumbindo à realidade brasileira. Brasília mostrou que não é uma ilha”, reforça Barreto, que acompanha há anos os movimentos políticos locais.

Pressão

Os governantes claramente não souberam lidar com o superadensamento da população, que, aliás, não para. Se considerada toda a região do Entorno, o DF e seus arredores já têm atualmente 4,1 milhões de habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A crescente pressão por serviços públicos esbarra em administrações capengas, repletas de vícios políticos. O mau uso do dinheiro público, embora farto no DF, acabou desmistificando a ideia de que a Capital Federal se confundia com um oásis de qualidade vida.

Carente de gestão pública eficiente e continuada, o DF mergulhou em crises que levaram até mesmo à prisão de um governador, José Roberto Arruda, em 2009. Os diferentes perfis de administradores não foram suficientes para explorar a capacidade de Brasília deslanchar.

As estatísticas de emprego e segurança, por exemplo, comumente celebradas por estarem bem acima da média nacional, passaram a assustar. Ao invés de atrair investimentos, crescer e fazer jus à imagem de cidade-modelo, Brasília, quando não andou para trás, empacou.

A Câmara Legislativa, criada em 1990 para ajudar o Tribunal de Contas do DF na missão de fiscalizar o Executivo, com frequência dá sinais de que também não escapou de gestões equivocadas e desvios de finalidade.

Proeza

O risco real de os servidores públicos ficarem sem salário ainda neste ano, caso Rollemberg não conte com a improvável ajuda do governo federal, é talvez o episódio mais simbólico da proeza protagonizada pelos que ocuparam o poder em Brasília.

“Essa situação é fruto de uma soma de erros de mau gestores, de falta de planejamento e também de falta de comprometimento político da população”, avalia o professor da UnB (Universidade de Brasília), José Matias Pereira, especialista em contas públicas, classificando os eleitores como corresponsáveis do atual cenário.

Brasília – incrivelmente, sublinha Pereira – têm desperdiçado a oportunidade de adotar uma gestão completamente diferenciada, pelo tamanho do orçamento, pelos níveis de escolaridade e renda dos moradores e pela estrutura razoável da cidade.

Além de terem de aprender a gerir, mesmo que na marra, recaem sobre as autoridades do DF o desafio de responderem o que pretendem fazer com a capital do país. Sem diversificação, pontua Pereira, a economia local caminha para o estrangulamento, o que poderia complicar ainda mais a situação financeira do governo.

Fonte: Fato Online

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