Discurso I – Os princípios



O discurso, no seu verdadeiro sentido, significa uma seqüência logicamente articulada de argumentos, mediante os quais uma determinada tese é apresentada.

O “discurso”, em princípio não necessita ser feito com eloqüência, e nem mesmo exige que seja pronunciado sob a forma de uma fala. Pode ser um discurso, no sentido original do termo, um texto escrito, como um ensaio, uma tese, uma teoria. Rousseau, por exemplo, chamou de Discours sur l’inegalité, sua obra filosófica mais importante sobre a natureza humana, assim como Maquiavel chamou de Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, o tratado que precedeu o Príncipe. Como se sabe, nenhum dos dois foi escrito para ser um “discurso”, eloqüentemente pronunciado em praça pública. Ambos foram escritos para serem lidos.

Discurso: seqüência logicamente articulada de bons argumentos

O discurso clássico, entretanto,feito para ser pronunciado oralmente perante um público determinado é de origem greco-romana, e foi adaptado mais tarde para a oratória religiosa. Ele subordinava-se a dois princípios (unidade e proporcionalidade) e era dividido em três partes abertura (exórdio), desenvolvimento, conclusão (peroração).

O princípio da unidade do discurso:

O discurso não pode ser um amontoado de frases, mal-articuladas entre si, escolhidas porque, individualmente consideradas, apresentam bem uma idéia.
O primeiro requisito que um bom discurso precisa atender é possuir unidade. As partes que o integram devem possuir uma lógica própria e específica, mas devem possuir também a lógica que resulta da sua articulação num conjunto harmonioso.
A qualidade do discurso não se limita, pois, à eloqüência de quem o pronuncia, nem aos seus recursos de voz, e menos ainda à facilidade de construção de frases atraentes.

A verdadeira qualidade se encontra no ordenamento das idéias, capaz de articular logicamente os argumentos, numa seqüência que conduza a uma conclusão persuasiva. Não se consegue isto sem a unidade do discurso. Aquelas qualidades enriquecem o discurso, mas não substituem a força persuasiva que a unidade lhe confere. A unidade é, basicamente, a mensagem que você quer comunicar, a conclusão que você deseja compartilhar com quem o ouve. Assim, a primeiríssima exigência que você deve se fazer, antes de discursar, é decidir, com absoluta clareza, o que você deseja comunicar.

A unidade do discurso é o veículo mais eficiente que você possui para realizar aquela comunicação, para atingir o seu objetivo de ser compreendido e persuasivo. A unidade carrega a mensagem, assegurando que a sua integridade, coerência e consistência lógica não sejam diluídas ou perdidas, ao longo das diferentes partes que compõem a estrutura do discurso.

Como definir esta unidade?

Para defini-la, pense na situação em que você só pudesse usar uma idéia, uma frase, para fazer a comunicação da sua mensagem. Numa situação como esta, você, forçosamente, vai procurar a idéia mais forte, mais convincente, dentre todas as que poderia usar, e vai tentar formulá-la da forma mais clara e persuasiva que puder.

A qualidade do discurso não se limita à eloquência de um orador

Esta é então em síntese, a essência da mensagem que você deseja passar para seus ouvintes. Esta é a conclusão que você deseja que eles tirem do seu discurso. Esta idéia passa a ser então o “fio condutor” do discurso, que vai conferir a ele a sua unidade.

Desde a abertura do discurso até a sua frase final, as idéias, argumentos e frases que você vai utilizar, devem sustentá-la logicamente, agregar a ela elementos de convicção, e “afunilar” o discurso para ela, como a conclusão natural e logicamente obrigatória.

O princípio da proporcionalidade das partes do discurso

Você deverá procurar estabelecer, no seu discurso, uma relação de proporcionalidade entre as partes que o constituem. A proporcionalidade entre as partes diz respeito à forma. Uma estrutura discursiva com partes desproporcionais tem o efeito de produzir confusão na mente de quem a ouve. A mente humana está treinada para compreender e apreciar estruturas, cuja unidade é obtida respeitando a proporcionalidade de suas partes em relação ao conjunto.

O próprio conceito de beleza e de normalidade são conceitos muito ligados a “harmonia do conjunto”, “proporcionalidade das partes”, ausência de aspectos demasiadamente acentuados, seja no tamanho ou na forma. Assim, quanto maior e melhor for o equilíbrio que você lograr estabelecer entre as partes integrantes do discurso, mais garantia você terá de que seus ouvintes entenderão e apreciarão a sua mensagem.

Não esqueça nunca: seu objetivo é comunicar aquela idéia central que você escolheria se pudesse usar apenas uma frase para a sua comunicação. Ela é o “fio condutor” do discurso. Não basta, entretanto, acumular argumentos que a sustentem. É preciso também expressá-la respeitando a sua proporcionalidade.

Se uma das partes for demasiado extensa, contiver uma variedade excessiva de argumentos e exemplos, você não apenas torna sua comunicação mais difícil de ser entendida, como corre o risco de desviar a atenção do ouvinte, de distraí-lo, fazendo com que ele dê mais atenção à parte do que ao conjunto.

É como se você esculpisse uma estátua de uma pessoa humana com um pé descomunal. Quem a observar vai ter sua atenção focada no pé, e não no conjunto do corpo.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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