Doleiro incrimina presidente da Câmara em depoimento à CPI

doleiro-incrimina-presidente-da-camara-em-depoimento-a-cpiYoussef confessa que intermediou operação para pressionar a Mitsui a pagar propina a Fernando Baiano, contato do PMDB no petrolão. Segundo ele, o Planalto e o PT “tinham conhecimento” de tudo.

Curitiba – O doleiro Alberto Youssef afirmou, em depoimento hoje (11) à CPI da Petrobras, que operou para resolver situação relacionada a requerimentos de informação na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle (CFFC), da Câmara dos Deputados, que tinha como alvo a Mitsui, empresas investigada na Operação Lava-Jato. A autoria desse requerimento é atribuída ao presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e faz parte do inquérito que apura o envolvimento do peemedebista no petrolão no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Precisava pagar o Fernando Baiano por conta do requerimento do deputado Eduardo Cunha na Comissão de Fiscalização”, afirmou Youssef. Ele presta depoimento, em Curitiba, como um dos delatores da Lava-Jato. De acordo com o doleiro, o pedido de Baiano, como é conhecido o lobista Fernando Soares e apontado como elo do PMDB no petrolão, foi intermediado pelo empresário Júlio Camargo. A “operação” seria para pressionar a empresa a pagar propina, após suspensão dos repasses. O depoimento do doleiro terminou pouco depois das 14h.

O pagamento, segundo Youssef, seria algo entre R$ 4 milhões e R$ 6 milhões. Ele explicou que Baiano era “titulado” como operador do PMDB pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. “Eu estive meia dúzia de vezes com ele (Baiano)’, afirmou. Uma dessas ocasiões, segundo o doleiro, foi para discutir essa questão relacionada ao deputado Eduardo Cunha.

A autoria dos requerimentos apresentados em 2011 à CFFC é investigada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Embora tenham sido autenticados no gabinete da ex-deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), suspeita Janot, os documentos foram confeccionados por Cunha. O chefe do Ministério Publico Federal ouviu o ex-diretor de Informática da Câmara Luiz Antônio da Eira e com base nas declarações do servidor pediu ao ministro Teori Zavascki, do Supremo, a realização de buscas na Câmara, que ocorreram na semana passada.

Planalto sabia

Youssef afirmou que não inventou o petrolão. “Eu era apenas uma engrenagem”, afirmou. Perguntado pelo deputado Bruno Covas (PSDB-SP), um dos sub-relatores da CPI, sobre o nível de informação que o “Palácio do Planalto” teria em relação aos desvios de recursos na Petrobras, o doleiro afirmou acreditar “que eles tinham conhecimento do que ocorria”, mas não mencionou nomes do Poder Executivo. “(Era um esquema que) servia aos interesses do partido do governo”, disse Youssef, referindo-se ao PT. “E, consequentemente, aos partidos da base.”

O deputado Antonio Imbassahy (PSDB-BA) o perguntou sobre o critério usado para dizer o que afirmara sobre o “conhecimento” do Palácio do Planalto. Youssef recorreu ao ex-diretor Costa. “Primeiro, porque o Paulo Roberto Costa sempre afirmava que precisava de um aval do Planalto. Segundo, que quando o Paulo Roberto Costa me diz que o Paulo Bernardo pede dinheiro para a campanha da sua esposa, eu acho que não ficam dúvidas”, disse. “Mas isso é uma opinião pessoal minha. Prova eu não tenho.”

“Eu era apenas uma engrenagem. Eles (o PT e o Palácio do Planalto) tinham conhecimento do que ocorria. (O esquema) servia aos interesses do partido do governo”Alberto Youssef, doleiro

O doleiro afirmou que se encontrou com o tesoureiro afastado do PT João Vaccari Neto em algumas ocasiões em restaurantes, mas não o convidou para que fosse a seu escritório em São Paulo. À CPI, Vaccari afirmou que foi convidado. “Não foi agendado. Eu nem estava lá”, disse. “Perguntei a minha secretária se ele (Vaccari) havia deixado recado, se voltaria.” O delator não se recordou de datas, mas falou em “2014 ou final de 2013”.

Preso desde 17 de março de 2014, Youssef afirmou que ouvia o ex-diretor Costa dizer que Vaccari era o operador na Diretoria de Serviços, comandada por Renato Duque. O único deputado do PT presente à audiência é o relator Luiz Sérgio (RJ).

A exemplo do que Costa fez na CPI da Petrobras, o doleiro colocou em dúvida a legalidade de doações de campanha. “O que eu posso afirmar é que fiz doações legais e descontei da propina”, afirmou o doleiro, respondendo a perguntas do deputado Júlio Delgado (PSB-MG). Youssef citou que procedeu dessa forma em relação a valores repassado ao senador Valdir Raupp (PMDB-RO), atendendo a pedido de Costa, e a políticos do PP.

Outro assunto questionado de Youssef foi o repasse de R$ 10 milhões ao então presidente do PSDB e senador, Sérgio Guerra (PE), para abafar investigações da Petrobras numa CPI do Senado em 2009. “Fui procurar a empreiteira Queiroz Galvão para que ela pudesse pagar seus débitos na Diretoria de Abastecimento e fui informado que eles teriam repassado R$ 10 milhões a pedido do Paulo Roberto Costa”, afirmou o doleiro, questionado pelo deputado Luiz Sérgio (PT-RJ).

Agendadas para hoje (11) e amanhã, as audiências ocorrem no auditório do prédio da Justiça Federal na capital paranaense. Estão previstos 13 interrogatórios de envolvidos no petrolão.

A tomada de depoimentos em Curitiba foi articulada pelo presidente da comissão, Hugo Motta (PMDB-PB), após críticas de colegas de que a investigação parlamentar não tem produzido fatos novos. A proposta foi aprovada mirando especialmente os executivos e funcionários das empreiteiras suspeitas de pagar propina a funcionários da Petrobras e políticos.

A comissão foi surpreendida no mês passado pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de converter em domiciliar a prisão preventiva das pessoas ligadas às empresas. Mas os interrogatórios em Curitiba foram mantidos. Estão ainda presos na cidade pessoas que são consideradas importantes para a investigação e havia uma cobrança de parte da CPI para ouvi-las.

Integrantes do PT, do PPS e do Psol, principalmente, vinham cobrando o depoimento do lobista Fernando Soares. Conhecido como Fernando Baiano, Soares é apontado como elo do PMDB no petrolão. Ele é suspeito de intermediar propina que teria beneficiado inclusive o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), alvo de inquérito no Supremo.

Fernando Baiano (C) usou o direito ao silêncio na CPIMarcelo Rocha

Os petistas elevaram o tom das cobranças em relação a Soares após a ida à CPI do tesoureiro afastado do PT João Vaccari Neto. Quando foi preso no ano passado, o lobista negou as irregularidades. Especulou-se sobre uma possível delação premiada que ele estaria negociando com procuradores da República no Paraná. Por enquanto, essa colaboração não foi efetivada.

Soares responde a ação penal na Justiça Federal do Paraná, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Na mesma denúncia, o Ministério Público Federal incluiu o ex-diretor Néstor Cerveró, apontado como outro beneficiário da propina desviada de contratos de contratos da Diretoria Internacional. Cerveró comandou essa área da Petrobras com o aval do PMDB, segundo os procuradores.

Sem receio

Aliado de Cunha, Hugo Motta tem respondido a críticas de que estaria evitando o depoimento de pessoas suspeitas de ligação com o PMDB, incluindo Fernando Soares. “Quem tem receio de CPI não pode participar da vida pública”, afirmou Motta. “Eu espero que a oitiva do senhor Fernando Baiano seja esclarecedora e que nos ajude a punir aqueles que estão envolvidos com corrupção na Petrobras.”

As acusações contra Soares e Cerveró estão baseadas principalmente na delação do empresário Júlio Camargo, lobista ligado ao Grupo Setal, que teria atuado na intermediação da propina. As suspeitas contra Camargo não se restringem à Diretoria Internacional. Em sua colaboração à Justiça, Youssef o apontou como “operador” de propina também na Diretoria de Serviços, que foi comandada por Renato Duque. Camargo ainda não foi ouvido pela CPI.

Além de Soares, Cerveró e Youssef, vão ser ouvidos em Curitiba os ex-deputados André Vargas (PT), Luiz Argôlo (SD) e Pedro Corrêa (PP). Em mais de dois meses de trabalho, a CPI só ouviu um político até agora e por iniciativa do próprio parlamentar. Foi Eduardo Cunha, tão logo surgiu a notícia de que seria investigado pelo Supremo. A audiência para ouvir Cunha se transformou numa grande sessão de desagravo, com críticas ao Ministério Público Federal.

Motta prevê que, a partir do dia 19 de maio, os depoimentos de empresários vão ocorrer. “Nós vamos ouvir todos que forem necessários para elucidar o caso de corrupção que ocorreu na Petrobras”, afirmou Motta. Entre ele está Ricardo Pessoa, ligado à UTC e apontado como o coordenador do “clube do bilhão”, como ficou conhecido o cartel das empreiteiras envolvidas no caso.

Fonte: Fato Online

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