Não há luz no final das passarelas

4xtbv7fine_32owkqvdnm_fileQuando caminho pela Asa Norte, às vezes, falo sozinho. Acho que estou ficando maluco, mas quando me lembro de um velho provérbio chinês: “quem nasceu e cresceu em um mercado de peixe, acaba se acostumando com o cheiro podre”. Faço uma reflexão e, em seguida, reavalio minhas criticas, respiro profundamente e sigo adiante.

São tantos os absurdos em nossa cidade que acabamos nos acostumando. O silêncio e o conformismo nos fazem cúmplices. Não se vê, não se ouve e não se fala. O não se manifestar parece fazer parte de um acordo para manter o título de cidade planejada e organizada. Os nativos da ilha notável se multiplicaram e como eles, os problemas.

A beleza das obras de Brasília confronta-se com sua funcionalidade. As passarelas subterrâneas dos eixos fazem parte da problemática existencial. São verdadeiras armadilhas. Atravessar exige preparo físico e perspicácia. Correr quando for preciso e avaliar quando um perigo iminente está por vir, são emoções intrínsecas aos verdadeiros heróis de guerra.

Somente quem precisa sabe que, tentar atravessar o eixinho e o eixão pelas passarelas subterrâneas, é uma verdadeira arte da guerra. À noite, desarmado, sem binóculo de visão noturna, sem capacete de aço e colete à prova de bala, o pedestre vai orando para não virar estatística de algum tipo de violência.

Sem câmeras e sem policiamento, as passarelas subterrâneas vivem na esperança de dias melhores. A cada nova administração, promessas e projetos são ofertados. Mas, enquanto isso, a população vive com o terror de utilizá-las.  Algumas pessoas, com medo, preferem arriscar atravessar as pistas do eixo, correndo o risco de serem atropeladas.

A pergunta que não cala é feita por qualquer usuário: por que as passarelas não são retas? Pois daria total visibilidade ao pedestre. Sendo possível enxergar a luz ao final das passarelas, ou solar, ou lunar. A opção de passar ou não seria democrática. O risco de ser rendido na reta final seria banido. Uma solução que poderia ter sido executada há muitos anos atrás é alterar a “obra poética”. Mas, é claro, com toda humildade e reverência, pediríamos licença. Com isso, seria quebrado o reduto da criminalidade. Em vez das passarelas terem um formato de “L” de ladrão, teríamos uma Reta de retidão, ou também usufruindo da licença poética, poderia ser um “I” de Inviolabilidade e Integridade.

A avalanche do pensar positivo e a corrente do bem são louváveis. Mas, não podemos aceitar um destino pautado pela sorte. Enquanto as autoridades se beneficiam de segurança particular, helicópteros, aviões, veículos confortáveis e potentes, temos que nos contentar com a esperança de dias melhores. Com o sorriso no rosto, a cada aniversário de Brasília, cantamos parabéns. Felizes da vida por termos mais opções além daquela, habitualmente, de irmos ao zoológico, somos tratados como ilustres convidados a tomarmos banho no lago Paranoá e sem entender nada, ouvir a orquestra sinfônica sentados no gramado da torre.

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