O marketing de fim de gestão I: Reeleição

marketingNo fim da gestão, o governante deseja, legitimamente, prestar contas de seu mandato aos eleitores e deixar vincada uma imagem de sucesso para o seu governo.

A eleição, como regra, favorece o candidato da mudança em relação ao da continuidade, nas situações em que há mais de um partido com condições eleitorais de chegar ao poder. O eleitor carrega um voto no bolso que lhe dá condições de participar de uma “compra coletiva”.

O período eleitoral e a campanha, com toda a controvérsia que ela gera, equivalem a um passeio pelas lojas, olhando vitrines, avaliando produtos, comparando-os, com vistas a fazer a “sua compra”. Como qualquer “comprador”, o eleitor sente-se mais atraído pelo novo que pelo conhecido, pela mudança do que pela continuação do que já existe, por novas “caras” do que por aquelas já familiares.

Este mesmo eleitor, entretanto, experimenta também dentro de si, vários conflitos:

O novo parece-lhe mais atraente, mas qual a garantia que tem de que vai funcionar bem? Que vai dar certo? Que vai ser tudo aquilo que parece ser?
Mudar é sempre desejável quando o resultado da mudança é uma melhoria, um progresso. Mas se a mudança comprometer o que está funcionando bem, sem conseguir trazer novas vantagens?
Um candidato menos conhecido, uma “cara nova” é também atraente, porque o candidato menos conhecido é um candidato a ser conhecido durante a campanha. Mas quem garante que ele está preparado para o desafio?

Cada um dos dois candidatos deverá então lutar para convencer o eleitor de que é possuidor do atributo mais marcante do adversário. Assim, o candidato à reeleição vai procurar mostrar que o novo mandato que pleiteia não se limitará a dar continuidade ao que já existe, mas que, ao contrário, ele está comprometido com as mudanças. De outra parte, o candidato da oposição vai procurar convencer os eleitores que possui as qualificações para fazer as mudanças, sem comprometer a continuidade do que de bom já foi realizado. É no interior deste debate que o conflito interno do eleitor se resolverá. É óbvio que se supõe que o candidato da situação representa uma administração que se saiu bem no seu mandato. Assim como é óbvio que se supõe que o candidato da oposição possui respaldo eleitoral para ser competitivo. Em outras palavras, para poder ganhar.

Dentro destes marcos políticos situa-se a questão do marketing de fim de gestão, para o candidato da situação. A partir do momento em que fica socialmente sabido que o atual titular pretende disputar a sua reeleição – muito antes, pois, do anúncio formal da candidatura – a sua condição de magistrado, de governante de todos, fica comprometida, e quanto mais próxima a campanha, mais comprometida ainda ficará. Seus atos já serão vistos como atos de campanha, como uso da máquina administrativa para se eleger. Esta é, pois, uma situação politicamente muito sensível, para qual se recomendaria muita cautela e discrição. Por outro lado, é exatamente no fim da gestão que o governante deseja, legitimamente, prestar contas de seu mandato aos eleitores, e deixar vincada uma imagem de sucesso para o seu governo. Como regra, as inaugurações das obras mais importantes ficam para este período, com o intuito politicamente válido de influir na decisão do eleitor.

Na reeleição, o governante tem pleno direito de prestar contas da administração aos eleitores

Como administrar esta situação delicada é um desafio político de proporções. Nem a timidez e o excesso de escrúpulos, nem tampouco o oportunismo populista, são guias confiáveis para passar por esta fase. Se a lei permitiu a reeleição, o governante está no seu pleno direito de:

(1) prestar contas de sua administração aos eleitores,

(2) usar as realizações de sua administração como um argumento para se reeleger.

A lei, ao admitir a reeleição permitiu ao governante governar e disputar a eleição; ser governante e ser candidato. Mas a lei também proíbe o administrador de usar os recursos públicos – no seu sentido amplo – para seu benefício pessoal ou partidário. Nesta condição então, o marketing de fim de gestão deverá se pautar por uma ação de comunicação, inteligente e rigorosamente contida dentro dos marcos legais.

Em termos práticos. Você está legitimado para mostrar o que realizou, inaugurá-lo, valorizá-lo publicitariamente. Mas atenção, seu marketing deverá assumir a forma de informação objetiva, de um relato do que foi efetivamente realizado, do cumprimento do que foi prometido, mas não uma oportunidade para auto-exaltação.

Você precisa acreditar que a realidade e utilidade do que fez vale muito mais do que a propaganda ostensiva em torno de sua pessoa. Esta você fará durante a campanha. Nesta fase que vai de agora até junho, seu marketing de fim de gestão deve exibir as qualidades de equilíbrio, objetividade, sensibilidade e veracidade. Nela você ainda é o governante de todos, e não o líder de um partido em busca de votos.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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