Os conceitos de ator e papel social (I)



marketing-politicoCom o nome de “papel” estamos sempre a indicar uma posição que vai além da sua mera definição formal ou tradicional.

Na linguagem política corrente e acadêmica, os conceitos de ator e de papel social/político, extraídos do mundo artístico, em especial do teatro, são frequentemente usados para significar o agente da ação e o comportamento padrão que dele se espera. É comum falar-se no “papel” que alguém desempenha nas mais diferentes organizações da vida social. O papel na família, na igreja, no sindicato, no partido político, no governo, etc.

As pessoas desempenham “papeis” nas diferentes organizações da vida social

Com o nome de “papel” estamos sempre a indicar uma posição que vai além da sua mera definição formal ou tradicional. Na sociologia e política tradicionais, falava-se em cargos e não em papéis, em instituições e não em estruturas. O problema não é meramente semântico.

Cargo e instituição são conceitos que supõe um grau de formalização que somente sociedades modernas atingiram, e dirigem nossas atenções para normas, regras e leis. Papéis e estrutura permitem-nos comparar quaisquer duas ou mais sociedades, em diferentes níveis de desenvolvimento social, cultural, político ou econômico, e dirigem nossa atenção para comportamentos reais e observáveis.

A moderna análise política, ao trabalhar com estes conceitos, escapa do viés tradicional da política vista pela ótica do formalismo jurídico, reconciliando-a com a sua base sociológica.

A unidade básica da vida social: relação social entre indivíduos no desempenho de papéis

A unidade básica da vida social, o menor elemento ao qual ela pode ser reduzida, não é o indivíduo isoladamente, e sim a relação social. Pode-se dizer que há relação social quando indivíduos ou grupos de indivíduos têm expectativas recíprocas em relação ao comportamento dos outros(com quem interagem) de modo que tendem a agir de maneiras relativamente padronizadas.

Alguns exemplos: relação médico/paciente; professor/aluno; policial/motorista; vendedor/comprador; político/eleitor. “Agir de maneira relativamente padronizada” significa que as relações sociais, por serem recorrentes, tendem a adquirir regularidade, a repetir-se. Nós temos uma série de “rotinas” que adotamos para orientar nossa forma de agir em diferentes situações sociais.

Sem essas rotinas, a vida social estaria carregada de imprevisibilidade, toda interação seria uma incógnita quanto à sua forma e consequências. A vida social seria então inviável, porque nenhuma forma organizada de vida pode existir sem previsibilidade. Por outro lado, as relações sociais tendem a se padronizar porque os indivíduos trazem para a relação não a sua personalidade total e sim aspectos, setores de sua personalidade.

A imagem de um político, por exemplo, significa a sua apresentação social para credenciar-se à ocupação de um determinado papel político. O que se conhece de um político é sua imagem, e não sua personalidade total.

Algumas relações(poucas) implicam no envolvimento completo da pessoa. A relação de amor por exemplo. Estas relações onde o indivíduo atua como pessoa são poucas, segregadas e muito seletivas. Sobre elas não se edificam organizações. É o campo da liberdade, do sentimento, da espontaneidade. Na vida em sociedade, entretanto, a quase totalidade das relações sociais são menos abrangentes e menos envolventes. São específicas, limitadas, “regulamentadas”, e portanto padronizadas. São os múltiplos papéis que desempenhamos. Ao sair de casa relacionamo-nos com nossos filhos como pai ou mãe; ao dirigir na rua relacionamo-nos com outros motoristas, pedestres, e policiais como motorista; ao chegar no comitê para a reunião, como político; passando no super mercado, como consumidor; ao ir ao teatro, como espectador; ao passar na casa dos pais, como filho; em casa, ao consultar por telefone o advogado sobre uma questão, como cliente; e assim sucessivamente. O que há de comum entre todas estas relações?

O que se conhece de um político é a imagem, não a personalidade

A pessoa é a mesma, mas para cada uma das relações sociais em que se envolveu a posição social do ator é diferente. São diferentes e específicas porque para cada uma delas pré-existiam certas expectativas padronizadas que condicionaram a sua maneira de agir. São diferentes porque não se espera que o indivíduo como médico comporte-se como pai ou espectador; ou como cliente se comporte como filho, etc. São específicas porque a “rotina” muda conforme muda a interação. Para cada uma há um “script” próprio e até mesmo “rituais” de execução.

Como os papéis sociais, e as expectativas que lhes dão conteúdo sobrevivem aos indivíduos, eles são unidades que podem formar as estruturas sociais, e, em última análise, o próprio sistema social.

O sistema social (político,econômico etc) edifica-se sobre papéis organizados em estruturas, e não sobre as pessoas na radical singularidade de sua personalidade. Na verdade, quando as estruturas se personalizam a sociedade se fragiliza. Em nenhum sistema da sociedade essa fragilização fica mais evidente do que na política. Quando uma instituição ou organização personaliza-se num indivíduo, ela perde sua majestade, sua legitimidade, e adquire em troca todas as fragilidades daquele indivíduo.

Papéis sociais são desempenhados por “atores”

O conceito de papel está estreitamente vinculado ao conceito de “ator”. Os papéis são desempenhados por atores. O papel de Hamlet sobreviveu e sobreviverá a todos os atores que o interpretaram, e, embora haja variações pessoais na interpretação de cada um, há marcos definidos e parâmetros estabelecidos (texto) que definem o papel de Hamlet para todos.

De forma análoga, o papel de Presidente da República, implica num mesmo “script” – constitucionalmente fixado – para todos. Mas, cada um possui o seu espaço de liberdade para conferir a marca pessoal do seu talento/ou falta de, na interpretação do papel. Assim, o papel de Presidente sobrevive a todos que o interpretam, não se identificando de forma excludente com nenhum.

O sistema político, com as estruturas que o compõem, constrói-se sobre a relação entre papéis, e não entre pessoas, circunstancialmente desempenhando seus papéis. Por isso ele adquire estabilidade no tempo; por isso é possível a substituição de indivíduos sem mudar o papel; por isso a política torna-se inteligível e previsível: porque se apoia em expectativas padronizadas e legalmente sancionadas, sobre o desempenho dos papéis, e não sobre a imprevisibilidade do comportamento individual.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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