Traçando um perfil realista do eleitor médio III: atalhos cognitivos

voteInformação interpessoal e ideologia ajudam o eleitor a preencher lacunas do seu conhecimento sobre a política e o governo.

Não obstante os vários tipos de informação obtidos na vida diária, na mídia e nas eleições, perduram ainda, na mente do eleitor médio, importantes lacunas, relativamente ao seu conhecimento sobre a política e o governo. Para cobrir estas lacunas, ele recorre a atalhos cognitivos, isto é, processos mentais que permitem – sem ter que dedicar muito tempo ao acompanhamento da política – chegar a conclusões sobre como avaliar as informações, escolher entre projetos e programas e julgar candidatos.

O eleitor médio não tem todos os conhecimentos sobre a política

O atalho cognitivo é o procedimento adotado por quem não possui um interesse auto-sustentado em política, para se informar e fazer escolhas, naquelas matérias constituídas por dados e informações difíceis de obter e mais difíceis ainda de analisar e processar.

A informação interpessoal como atalho cognitivo

Grande parte dos eleitores, quando se sentem inseguros para avaliar a validade e importância de certas informações políticas, recorrem a pessoas de sua confiança para confirmá-las, e validá-las. Esta é sem dúvida, uma estratégia para economizar tempo e trabalho e resolver as incertezas. Este enfoque dado por Popkin é uma adaptação moderna da clássica teoria do Two step flow of communication, desenvolvido por Lazarsfeld e Katz, da escola da Universidade de Columbia, na década de 40.

“O fluxo de informação em dois degraus (two step flow of communication) significa que muitas pessoas recebem a sua informação de maneira indireta e que muitos deles, validam e incorporam o que leram ou ouviram, somente depois de haver trabalhado este material com outras pessoas” (Katz e Lazarsfeld – Personal Influence)

Segundo Popkin então:

“a campanha e a mídia somente enviam a mensagem inicial. Até que elas tenham sido checadas e validadas com outras pessoas, seus efeitos não se fazem sentir” (Popkin, op. Cit. Pg. 46)

A maioria das pessoas acompanha por alto o que está acontecendo – a economia vai bem ou vai mal; estamos em guerra ou não; o governo está indo bem ou mal etc – deixando para aqueles que fazem um “acompanhamento de perto” assim como aos especialistas, a tarefa de soar o sinal de alarma quando a situação é grave e perigosa. Feito o alerta, o cidadão comum sente-se motivado e é acionado para tomar conhecimento do que está acontecendo.

O papel que, historicamente, o líder de opinião (a pessoa em quem o eleitor confia) exercia no “fluxo de informação em dois degraus”, é hoje, cada vez mais ocupado pela TV e por seus comentaristas. Nela aparecem comentaristas e entrevistados que representam, pelo menos, as principais tendências políticas e que fornecem ao cidadão um “cardápio” variado de opções para a interpretação dos fatos, que substitui, em grande medida, aquela pessoa a quem o eleitor recorria pessoalmente para checar e validar notícias e informações.

Como diz Popkin:

“Exatamente como os alarmas de incêndio poupam ao cidadão do esforço e trabalho de observar se há fogo, os atalhos cognitivos poupam os eleitores de, constantemente, procurar por fatos políticos relevantes”.
A ideologia como atalho cognitivo

Para outros eleitores, a ideologia – como um construto teórico, formado por valores, princípios, pressupostos e métodos próprios – a respeito do significado, função e finalidade da política, funciona como atalho cognitivo.

Não é preciso que o indivíduo domine intelectualmente a ideologia em toda a sua complexidade. Basta que adquira uma identificação com ela, por meio de seus símbolos, idéias básicas, e, sobretudo por sua adesão à partição do mundo político entre companheiros e inimigos irreconciliáveis.

O papel do líder de opinião é hoje, cada vez mais, ocupado pela TV e seus comentaristas
Assim, a ideologia pode se expressar de forma bastante vaga como: conservadores e liberais nos EUA; socializante e privatista; esquerda e direita; reacionário e progressista; centralizador e descentralizador, entre outras polaridades. Esta é uma definição operacional de ideologia, para efeitos práticos de uma campanha eleitoral. Não é a definição cuidadosa e sofisticada do termo, praticada nos meios acadêmicos.

O que importa, na situação de uma campanha eleitoral, é que estas diferenciações, ainda que vagas e largamente inconsistentes, são suprapartidárias, possuem um núcleo dogmático bem definido, diferenciam de maneira radical companheiros, aliados e inimigos, e têm a capacidade de organizar os sentimentos. Assim, o indivíduo que “tem” uma ideologia, possui um claro posicionamento na campanha, desde antes ela começar, e independentemente do que nela venha a ocorrer. Pode não saber ainda em quem vai votar. Mas sabe, com absoluta certeza, em quem não vai votar.

A ideologia pode se identificar com um partido, mas não está necessariamente atrelada a um partido. Quem é de esquerda, vai votar num candidato de esquerda. A questão do partido torna-se, nestes casos, secundária. Nos EUA, por exemplo, um liberal do partido republicano pode votar votar num candidato democrata liberal para a Presidência, e não num candidato conservador do seu partido.

Em outras palavras, lá, a clivagem liberal-conservador é mais ampla e abrangente do que a partidária. O mesmo sucede em outros sistemas políticos, com as demais clivagens antes referidas. A ideologia funciona então, para estas pessoas, como um atalho cognitivo. O fato de que sua opção de voto já estar decidida por antecipação dispensa este eleitor de gastar tempo, fazendo o acompanhamento da campanha, e buscando informações políticas.

Já o eleitor verdadeiramente ideológico tende a possuir um grau mais elevado de interesse pela política do que possui o eleitor vagamente ideológico. Para ele, a decisão de voto é determinada por uma opção ideológica clara, explicitamente desenvolvida. Como regra, este tipo de eleitor é uma minoria dentro do eleitorado, sendo composto predominantemente por pessoas de nível educacional médio e principalmente alto.

Para o vagamente ideológico o atalho funciona mais no sentido de torná-lo imune à propaganda, e aos argumentos dos seus adversários. As informações que chegam a ele,são validadas ou não pelas personagens que compartilham a sua visão da política, e que ele respeita e admira.

Para os eleitores vagamente ideológicos a ideologia não é, portanto, uma marca de sofisticação intelectual e de nível mais elevado de consciência, mas, ao contrário, ela representa uma simplificação da visão da política, funcionando como um default value, ou, na linguagem contemporânea da informática, uma customização do processo operacional de decisão eleitoral.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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