Por Marcelo Senise
Congresso fracassou, Executivo se calou e o TSE tenta, em esforço hercúleo, conter uma hemorragia com um band-aid. Às vésperas do debate global sobre IA, o Brasil chega de mãos vazias — e ignora o risco central: a predição fina do comportamento político, feita em silêncio e em escala
O Brasil entra na temporada eleitoral sem uma lei de IA. Não é detalhe técnico; é a porta aberta para novas formas de manipulação. O Congresso não entregou regras mínimas, o Executivo preferiu o silêncio e o TSE, sozinho, improvisa com resoluções que valem como band-aid em cirurgia aberta. Para o tamanho do problema, é pouco — e é tarde.
No exato momento em que se inicia a Conferência Global de IA em Nova Déli, chegamos ao debate internacional de mãos vazias. Outros países já exigem rastreabilidade de conteúdo, bibliotecas públicas de anúncios e padrões de auditoria; nós ainda empurramos o essencial para depois. Não é futurologia, é o aqui e agora: proteger a integridade do voto e a visibilidade do jogo eleitoral.
A vitrine costuma ser a IA generativa: imagens falsas, vozes clonadas, textos em massa. O verdadeiro perigo, porém, é mais silencioso — e quase não é citado: a IA preditiva. Ela não precisa inventar nada para deslocar votos. Basta medir sua hesitação, inferir seu ponto de virada e entregar a mensagem exata, no instante exato, pelo canal exato. É a ciência da conversão aplicada à política, com testes contínuos, microsegmentação extrema, personalização emocional e otimização de impacto. O resultado não vira escândalo; vira desvio padrão estatístico. Quando percebemos, a maré mudou — sem pegadas à vista.
Essa opacidade corrói a praça pública. O debate comum se desfaz em milhares de campanhas privadas, invisíveis para a imprensa, para adversários e, muitas vezes, para a própria Justiça Eleitoral. Não há escrutínio coletivo sobre “quem viu o quê, quando e por quê”. E sem escrutínio não há igualdade de condições; há assimetria de dados, de alcance e de capacidade de persuasão.
O mundo já testou esse abismo — e democracias tidas como mais sólidas bambearam. No Brexit, anúncios “escuros” segmentaram medos fora do escrutínio público; nos EUA, desinformação e microdirecionamento corroeram a confiança; na Índia, mensagerias turbinaram pânicos e boatos. Até países com regras mais robustas chegaram atrasados à rotulagem, às bibliotecas de anúncios e à rastreabilidade — quase sempre depois do dano. Se eles vacilaram, por que nós passaríamos ilesos?
Há, também, responsabilidade dentro de casa. A sociedade civil não falou alto o suficiente, nem na cadência certa. Organizações, pesquisadores, coletivos e, sim, o próprio IRIA falharam ao não sensibilizar o Parlamento e o Estado para a gravidade da questão. Faltou traduzir urgência técnica em linguagem política, coordenar agendas, sustentar pressão pública, unir tecnologia, direito, imprensa e cidadania em torno de exigências claras. Sem essa aliança, cada audiência vira palestra; cada alerta, ruído; cada janela de oportunidade, uma porta fechada.
Ainda dá para reduzir danos — mas é preciso luz. Luz significa rotulagem clara de conteúdos e anúncios produzidos ou impulsionados por IA, trilhas técnicas que permitam auditoria independente, bibliotecas públicas com criativos, gastos, critérios de segmentação e histórico de veiculação, janelas de resposta rápida para corrigir dano com alcance proporcional, deveres explícitos para plataformas com registros auditáveis e sanções efetivas, testes de robustez e red teams para modelos usados em campanhas, gatilhos objetivos para pausar sistemas e peças em contextos de alto risco. Não é burocracia: é freio de emergência.
Sem essas salvaguardas, a eleição acontece às escuras. O voto deixa de ser escolha deliberada e vira reflexo previsto por máquinas que nos conhecem melhor do que nós mesmos. A ameaça principal não é a mentira perfeita; é a previsão precisa da sua hesitação — e a mensagem cirúrgica que a transforma, silenciosamente, em decisão.
A hora de agir é antes do ruído tomar a praça. O Brasil precisa alinhar Justiça Eleitoral, Congresso, Executivo, plataformas e sociedade civil numa mesma mesa, com prazos definidos, métricas de transparência, auditoria independente e consequências reais para o descumprimento. Sem isso, continuaremos disputando o futuro em salas onde só um lado enxerga — o lado que controla os dados.
Se democracia é luz acesa, então acendamos agora. O voto não pode ser um ato solitário previsto por alguém que você nunca viu. Ele tem de voltar a ser escolha pública, consciente, contestável. Quem controla a previsão, controla o resultado. Ou trazemos o processo para o claro — com coragem, regras e verificação — ou aceitaremos, sem admitir, que a próxima decisão já foi tomada por nós.
Marcelo Senise Sociólogo, Marqueteiro Político, especialista em Comportamento Humano e IA aplicada a Comunicação Política. Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA. Autor de “A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política” e “Blindagem Essencial”.






