No Dia da Mentira, celebramos o lúdico, mas a realidade política e de mercado transformou a “fake news” em uma arma de destruição em massa que não tira folga para brincadeiras
Bom dia, mentiroso em potencial! Hoje, 1º de abril, o Brasil oficializa o Dia da Mentira, aquela data em que é socialmente aceitável enganar o próximo com histórias absurdas, como prometer que a polarização política vai acabar ou que o café da repartição finalmente ficou bom. No entanto, enquanto você planeja uma peça inofensiva no grupo da família, vale o alerta: a desinformação deixou de ser uma pegadinha romântica para se tornar a espinha dorsal de estratégias globais de poder. A “fake news” não é um fenômeno moderno; ela é a avó malvada de todas as narrativas, uma entidade que evoluiu de pergaminhos e lanças para códigos binários e deepfakes com uma eficiência que faria Darwin questionar a própria teoria.
Se olharmos para trás, percebemos que a mentira sempre foi o combustível mais barato para a vitória. O Cavalo de Tróia foi, possivelmente, a primeira grande fake news da história militar — um “presente de paz” que era, na verdade, um cavalo de madeira recheado de soldados sedentos por sangue. Na Roma Imperial, Nero não precisava de robôs no Twitter para culpar os cristãos pelo incêndio de Roma; bastava o controle da narrativa oral para garantir que o povo tivesse um culpado conveniente enquanto ele tocava sua lira. Naquela época, a desinformação era low-tech, mas o impacto era absoluto: quem controlava a versão dos fatos, controlava o destino das cabeças (literalmente).
Com a invenção da imprensa de Gutenberg, a mentira ganhou escala industrial. Panfletos apócrifos alimentavam guerras religiosas com a mesma facilidade com que hoje se compartilha um áudio forjado no WhatsApp. Mas foi no século XIX que a mentira se descobriu como um excelente modelo de negócio. O “jornalismo amarelo” de William Randolph Hearst provou que o mercado não quer a verdade, quer o espanto. “Você fornece as fotos, eu forneço a guerra”, teria dito o magnata, consolidando a ideia de que fabricar crises é muito mais lucrativo do que reportá-las. A mentira, então, deixou de ser apenas uma tática de sobrevivência para se tornar uma mercadoria de alto valor agregado.
O século XX elevou o jogo ao nível da propaganda total. De Goebbels, com sua máxima de que uma mentira repetida mil vezes se torna verdade, às transmissões de rádio de Orson Welles que fizeram americanos acreditarem em uma invasão marciana, a humanidade provou ser viciada no extraordinário, mesmo que ele seja falso. Durante a Guerra Fria, a CIA e a KGB transformaram a desinformação em uma ciência exata, infiltrando boatos para desestabilizar governos inteiros. O sarcasmo aqui é inevitável: antigamente, era preciso uma agência de inteligência inteira para derrubar um regime; hoje, basta um adolescente com um celular e um algoritmo viciado em engajamento por ódio.
Atualmente, vivemos o ápice dessa evolução. Saímos das correntes de e-mail inofensivas para a era dos deepfakes e da Inteligência Artificial, onde a imagem e a voz de um líder político podem ser replicadas para dizer qualquer atrocidade. No mercado político, a estratégia de desconstrução — tema que exploro em minha obra — tornou-se uma guerra híbrida e constante. O algoritmo não busca a veracidade, ele busca a retenção, e nada retém mais o olhar do que o medo e a indignação fabricados. No Dia da Mentira, a maior ironia é perceber que a verdade nua e crua tornou-se o artigo de luxo mais escasso do mercado. Desconfie do seu feed; em um mundo de perfeição artificial, a imperfeição humana e a estética da verdade são os únicos antivírus eficazes contra a barbárie digital.
Marcelo Senise é estrategista político, presidente do IRIA e autor do livro ‘A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política’.





