Da redação
A tribo Fore, localizada em Papua-Nova Guiné, praticou canibalismo ritual até a década de 1950, consumindo corpos de familiares falecidos como parte dos costumes de luto. A prática contribuiu para a disseminação de uma doença fatal chamada kuru, que afetou principalmente mulheres, crianças e idosos da comunidade naquele período.
O kuru era descrito pelos membros da tribo como um “tremor com febre e frio”, caracterizando-se por perda de coordenação motora, dificuldades na fala, riso involuntário e, em estágios avançados, incapacidade de engolir e morte. O rápido avanço da doença transformou-a em uma das principais causas de morte em algumas aldeias Fore.
Autoridades australianas e cientistas começaram a investigar o kuru a partir dos anos 1950. Como a enfermidade não atingia outras tribos da região, os pesquisadores descartaram a possibilidade de um fator hereditário. Os estudos passaram, então, a associar a doença ao ritual canibalístico exclusivo praticado pelos Fore.
Com a proibição do canibalismo em 1954, houve redução gradativa nos casos de kuru, apesar de registros isolados ainda ocorrerem por anos devido ao longo tempo de incubação do agente infeccioso. Esses casos esporádicos afetavam principalmente pessoas que participaram dos rituais enquanto crianças.
O pesquisador Daniel Carleton Gajdusek liderou estudos que comprovaram a transmissão do kuru por meio do consumo de tecido cerebral infectado. Posteriormente, o cientista Stanley Prusiner identificou o agente causal como um príon, uma proteína infecciosa capaz de alterar outras proteínas no cérebro e provocar degeneração neurológica progressiva.
Atualmente, os príons são apontados como causa de diversas encefalopatias espongiformes transmissíveis. Entre elas estão, além do kuru, a doença de Creutzfeldt-Jakob em seres humanos e a encefalopatia espongiforme bovina, popularmente conhecida como “vaca louca”.





