Da redação
O acervo do coronel Cyro Etchegoyen, guardado sob sigilo até sua morte em 2012, traz novas revelações sobre a repressão durante a ditadura militar no Brasil. Composto por 3.000 páginas em 23 pastas, o material pressiona o Estado brasileiro a aprofundar investigações sobre ações de agentes da repressão.
Os documentos detalham colaboração do Reino Unido com a ditadura e evidenciam novas vítimas de crimes como estupro, além de relatos de desvios cometidos por militares. A publicação dos arquivos, conforme historiadores, reforça a demanda pela abertura dos arquivos das Forças Armadas e joga luz sobre práticas até então pouco documentadas.
Entre os registros, destaca-se o “Relatório do Estágio de Informações na Inglaterra”, referente à viagem de quatro militares brasileiros a convite do governo britânico. De 14 a 19 de dezembro de 1970, participaram do estágio o coronel Milton Machado Martins e Etchegoyen, enquanto, de 15 a 26 de fevereiro, estiveram presentes os tenentes-coronéis Moacyr Coelho e Milton Masselli Duarte.
O documento, marcado como secreto, indica que os britânicos do MI-5 ensinaram aos brasileiros métodos de tortura conhecidos como “Cinco Técnicas”, posteriormente empregados no Brasil. Segundo o historiador João Roberto Martins Filho, os arquivos demonstram a transmissão desses métodos, originados no contexto da repressão à luta anticolonial na Malásia e depois adotados contra o IRA no Reino Unido.
Além disso, o acervo relata o estupro da vendedora Marilene dos Santos Mello, sequestrada em 1969, e detalha práticas como roubo de bens durante operações militares. Rodrigo Patto Sá Motta, da UFMG, afirma que esses casos contrastam com a imagem idealizada das Forças Armadas propagada por parte da sociedade.
Lucas Pedretti, professor da UFRJ, critica a ausência de um órgão permanente para apurar crimes da ditadura e reforça a necessidade de abrir arquivos militares. O encerramento da Comissão Nacional da Verdade em 2014 deixou lacunas, segundo especialistas, que veem nas revelações de Etchegoyen a importância de novas investigações e acesso irrestrito à documentação.







