Início Brasil COLUNA DO BLAU BLAU | Ingratidão verde e amarela

COLUNA DO BLAU BLAU | Ingratidão verde e amarela

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Por Alex Blau Blau

Demorou quase meio século para eu entender. E quando entendi, não foi bonito.

Na política, existe um fenômeno curioso: quem sobe carregado pelo povo costuma acreditar que chegou sozinho. E, depois de alcançar o topo, começa lentamente a trocar convicção por conveniência, aliados por circunstâncias e memória por oportunismo.

Acontece muito

Discursos inflamados viram silêncio estratégico. Bandeiras antes erguidas com orgulho passam a ser escondidas no fundo do armário. E antigas certezas ideológicas desaparecem com a mesma velocidade de uma nota oficial mal escrita.

No meio dessa confusão toda, fica a pergunta que talvez explique boa parte do cenário político brasileiro: com quantas mangas se mata a fome?!

Porque chega uma hora em que o discurso já não alimenta mais ninguém. Nem a base. Nem os aliados. Nem a própria coerência.

O caso da senadora Damares Alves parece caminhar exatamente nessa direção. A mesma figura pública que um dia transformou o “menino veste azul e menina veste rosa” em símbolo nacional agora parece enxergar a política em tons muito mais acinzentados. O azul e o rosa ficaram pequenos diante do tamanho das conveniências.

E tudo bem mudar. A política muda. As pessoas mudam. O problema nunca foi a mudança. O problema é atropelar a própria história no caminho e fingir que ninguém percebeu.

Perceberam

Principalmente quando antigos parceiros do Legislativo, que estiveram ao lado dela em momentos difíceis, sustentando discursos, defendendo posições e enfrentando desgastes, passam a ser atacados sem provas concretas, sem fundamentos sólidos e, pior, baseando-se em blogs de credibilidade duvidosa que amanhã podem muito bem desaparecer junto com as narrativas que ajudaram a fabricar.

Ironia maior talvez nem exista

Enquanto isso, quem realmente pleiteia o Executivo parece receber uma curiosa blindagem política. Um silêncio quase respeitoso. Uma cautela seletiva. E a vida pública ensina rápido: mandato não é patrimônio eterno. A política gira. Hoje se bate palma no gabinete; amanhã talvez seja preciso bater grades para visitar quem perdeu o foro, o cargo e o caminho.

E o mais curioso é que aqueles mesmos parlamentares atacados hoje talvez continuem amanhã ocupando seus mandatos, sentados nas mesmas cadeiras, de portas abertas, observando em silêncio a roda girar.

Porque ela gira

Água dura em pedra mole tanto bate até que fura. Mesmo invertida, torta e desconexa, a frase ainda faz mais sentido do que certos movimentos políticos recentes. Há quem insista tanto na incoerência que acredita sinceramente que ela acabará parecendo natural.

Não parece

A política aceita divergências. Aceita mudanças de rota. Aceita até alianças improváveis. O que ela dificilmente perdoa é a ingratidão exibida em praça pública como se fosse virtude.

E quando essa ingratidão vem acompanhada de narrativas frágeis, versões mal costuradas e ataques seletivos, o desgaste deixa de ser apenas político. Passa a ser moral.

No fundo, talvez seja tudo uma grande tentativa de sobrevivência. Uma corrida desesperada para continuar relevante em um ambiente onde a fidelidade dura menos que um trending topic.

Mas há algo que o tempo nunca deixa barato: a incoerência repetida

Demorou quase cinquenta anos para eu entender, mas agora parece óbvio: subir na política é difícil, permanecer é ainda mais complicado, mas nada é tão rápido quanto a queda de quem confunde apoio com obrigação e lealdade com submissão.

No fim, não é sobre quem chegou lá

É sobre quem resolveu esquecer quem carregou a escada.

A prosa tá boa mas me dê licença que vou procurar uma goiabeira pra falar com o Salvador.