Da redação
Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) identificaram que grupos responsáveis pela circulação de informações falsas passaram a utilizar estratégias mais sofisticadas para legitimar suas afirmações, segundo análise apresentada durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói (RJ). Conforme o estudo, esses grupos usam referências científicas, especialistas alternativos e mecanismos de plataformas digitais para dar credibilidade a conteúdos antivacina, teorias conspiratórias e falsas controvérsias.
Marcelo Alves dos Santos Júnior, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e coordenador do estudo, afirmou que as noções tradicionais de negacionismo não explicam esse fenômeno. Segundo Santos Júnior, ocorre uma apropriação do discurso científico, com a seleção de partes do conhecimento para defender determinadas visões e a transformação do debate e das incertezas inerentes à ciência em instrumentos de confusão pública. Thaiane Moreira de Oliveira, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do INCT-CPCT, explicou que grupos organizados criam controvérsias artificiais para impulsionar interesses específicos e disputar autoridade.
Foi citado o caso da chamada “síndrome pós-spike”, atribuída sem comprovação científica às vacinas de RNA mensageiro contra a COVID-19. Segundo investigação apresentada por Bernardo Costa, jornalista do Estadão Verifica, médicos antivacina utilizaram esse discurso para promover consultas e cursos pagos, divulgando ainda um estudo posteriormente retirado por falta de evidências. Costa relatou que a aparência científica do material contribuiu para enganar pessoas sem familiaridade com métodos de pesquisa, resultando em negócios baseados na desinformação.
Pesquisadores apontaram ainda que o funcionamento econômico das plataformas digitais favorece a disseminação de conteúdos falsos, pois algoritmos e sistemas de anúncios priorizam materiais sensacionalistas que atraem mais cliques, de acordo com Santos Júnior. O avanço da inteligência artificial generativa e o chamado “efeito clique zero” nos mecanismos de busca dificultam o acesso a fontes jornalísticas originais e ameaçam a sustentabilidade do jornalismo profissional, cenário agravado por sistemas algorítmicos que aumentam o controle das plataformas sobre a circulação de informação, conforme Nina Fernandes dos Santos, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).





