Da redação
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, afirmou na abertura da reunião de Alto Nível da Assembleia Geral que a última década foi marcada por uma “crueldade desprezível”, citando guerras em que civis e trabalhadores humanitários se tornaram alvos e a fome passou a ser usada como tática de combate. Segundo Guterres, o mundo vive uma reconfiguração do poder global em três frentes: entre Estados, com novos centros de influência econômica, política e tecnológica; uma transferência extraordinária de poder para grandes corporações e indivíduos; e a crescente delegação de poder às máquinas, com inteligência artificial e armas autônomas letais.
De acordo com o chefe da ONU, “robôs assassinos não devem ter espaço em nosso futuro”, defendendo uma estrutura multilateral de gestão de riscos da inteligência artificial apoiada por supervisão independente. Guterres avaliou que os sistemas de governança global refletem uma era já superada e que a atualização desses mecanismos constitui o “desafio decisivo” para a comunidade internacional, em um cenário que considera claramente multipolar. Ele alertou que a multipolaridade pode levar tanto à fragmentação e desconfiança crescentes quanto a um modelo de interdependência baseado em regras comuns e respeito ao direito internacional.
O secretário-geral citou conflitos em Gaza, Cisjordânia, Ucrânia, Sudão e Mianmar como exemplos do que ocorre quando o poder foge ao controle. Sobre a própria ONU, chamou de “injusto e indefensável” um Conselho de Segurança sem assentos permanentes para a África. Guterres também abordou a desigualdade de gênero, afirmando que mulheres e meninas enfrentam discriminação em todo o mundo, mas que paridade já foi alcançada em cargos de liderança da organização. “A igualdade não é um sonho, é uma decisão”, afirmou.
Na questão climática, Guterres pediu que poluidores respondam pelos danos causados, mencionando grandes empresas de petróleo que trataram a atmosfera como “esgoto a céu aberto”. Reforçou a necessidade de planos nacionais para transição dos combustíveis fósseis, com cronogramas e proteção a trabalhadores. Na sequência, o presidente da Assembleia Geral, Khalilur Rahman, destacou que a razão de ser da ONU é evitar uma terceira guerra mundial, mas reconheceu que a organização enfrenta desafios para cumprir demandas da população e atuar em conflitos não resolvidos.





