Da redação
Uma pesquisa inédita conduzida pela doutoranda e perita criminal Ana Carolina Humanes, no programa de pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde da Universidade de Brasília (UnB), analisou 3.375 casos de estupro registrados no Distrito Federal entre 2018 e 2021. O estudo traça um diagnóstico detalhado do perfil das vítimas e dos autores desses crimes, apresentando cinco padrões distintos de vitimização que exigem estratégias específicas de prevenção e investigação.
Entre os principais achados, destaca-se que 67,3% das vítimas são consideradas vulneráveis, com 82,1% desse segmento composto por crianças menores de 14 anos. A maioria das vítimas é do sexo feminino (89,8%), embora haja expressiva presença de meninos entre as crianças. Os crimes ocorrem predominantemente em ambientes internos (81%), sendo a maioria praticados por pessoas conhecidas das vítimas (80,2%), especialmente familiares (45,9%).
A pesquisa aponta que, no caso de crianças, os abusos ocorrem em sua maioria durante o dia, frequentemente em contexto familiar e sem uso de violência física, tornando a comprovação ainda mais difícil. “No cotidiano pericial, percebi que grande parte das vítimas eram crianças e pessoas vulneráveis abusadas por conhecidos e familiares”, relata Ana Carolina. Segundo dados, 17,8% dos casos são repetidos e, mais da metade, persistem por mais de um ano.
A vulnerabilidade socioeconômica se mostrou um fator determinante: regiões com menores índices de desenvolvimento humano, como Brazlândia e Estrutural, apresentam maior incidência dos crimes, embora casos em áreas de alto IDH como o Varjão demonstrem que o crime atravessa classes sociais. A subnotificação é destacada como desafio central para dimensionar a real magnitude do problema.
O estudo, publicado em 28 de março no Journal of Interpersonal Violence, ressalta a importância de abordagens intersetoriais e defende educação sexual como medida protetiva. Para a professora Andrea Gallassi, “o perfil real do estupro confronta o ideal de harmonia familiar”, destacando a necessidade de enfrentamento cultural, além do fortalecimento das redes de proteção e acolhimento às vítimas.






