Por Alex Blau Blau
Quando o poder chama, a memória costuma ficar pelo caminho
Roma tinha Brutus. A Macedônia teve Alexandre enfrentando a sombra eterna de Filipe. A Inglaterra assistiu filhos conspirarem contra pais e irmãos derrubarem irmãos. A mitologia está repleta de herdeiros que descobriram uma verdade inconveniente: o trono é um lugar pequeno demais para acomodar duas coroas.
E eis que a política brasileira parece oferecer sua própria versão dessa velha história.
Flávio Bolsonaro resolveu vestir uma roupa nova. Defende Bolsa Família. Defende isenção do Imposto de Renda para quem ganha menos. Elogia a liberdade de imprensa. Critica a relação do governo do próprio pai com os meios de comunicação. Daqui a pouco alguém vai encontrá lo cantando “Lula lá” escondido no banheiro de algum aeroporto.
O fenômeno é fascinante. Não porque políticos mudem de opinião. Isso acontece desde que o primeiro senador romano percebeu que seus princípios dependiam da direção do vento. O interessante é a velocidade da conversão.
Até ontem, parte desse discurso era tratado como heresia dentro do próprio campo político que hoje Flávio pretende liderar. Agora virou virtude. Defender programas sociais já não parece um problema. Elogiar a imprensa também não.
No Coliseu da política brasileira, os pedidos de desculpas aos jornalistas tantas vezes chamados de “militantes” passaram a ser mais aguardados do que o momento em que o gladiador seria lançado aos leões.
Milagre? Revelação divina? Ou simples leitura de pesquisas?
A pergunta fica no ar.
Em tempos normais, talvez passasse despercebido. Mas estamos falando de um personagem que carrega o sobrenome mais poderoso da direita brasileira e que tenta, ao mesmo tempo, herdar o trono e reformar o castelo.
Missão complicada.
Porque toda herança tem seu preço. E toda sucessão produz fantasmas.
Brutus também dizia defender Roma. Os filhos de Henrique II juravam agir pelo bem do reino quando se revoltaram contra o próprio pai. Ricardo III não acordava de manhã pensando em ser o vilão da história. Todo aspirante ao poder encontra uma justificativa nobre para suas ambições. É assim desde que o mundo é mundo.
O problema surge quando a conveniência começa a parecer mais forte que a convicção.
Flávio percebeu algo que as pesquisas vêm mostrando com clareza. O eleitor médio não quer guerra permanente. Não quer briga diária. Não quer viver em campanha eleitoral vinte e quatro horas por dia. E talvez tenha percebido também que determinadas bandeiras, antes demonizadas por sua própria bolha política, possuem enorme apoio popular.
Então surge o novo personagem. Mais moderado. Mais sorridente. Mais conciliador. Mais distante do velho roteiro bolsonarista.
O curioso é que, nessa transformação, quem mais parece apanhar é justamente o criador da criatura.
Quando Flávio diz que houve erro na relação com a imprensa, a crítica tem endereço. Quando elogia programas sociais, a mensagem tem destinatários. Quando suaviza o discurso, inevitavelmente endurece o contraste com o passado.
É a velha história das cortes medievais. O príncipe começa a construir seu próprio reinado antes mesmo de o rei deixar o trono. E quanto mais cresce, mais a sombra do pai passa a incomodar.
Talvez seja coincidência. Talvez seja maturidade política. Talvez seja apenas a mais antiga das tradições humanas: a irresistível tentação do poder.
No fim das contas, talvez esta não seja uma coluna sobre Flávio Bolsonaro.
Talvez seja uma coluna sobre poder.
O poder que transformou impérios. O poder que dividiu famílias. O poder que colocou irmãos em lados opostos. O poder que fez reis perderem filhos e filhos perderem reis.
O poder que continua sendo o prato de lentilhas da política moderna.
E que, séculos depois de Roma, ainda faz ecoar a mesma pergunta pelos corredores da história:
Até tu, Flávius?





