Início Brasil Canetas ilegais para emagrecimento preocupam autoridades e ampliam fiscalização nas fronteiras

Canetas ilegais para emagrecimento preocupam autoridades e ampliam fiscalização nas fronteiras

Por Alex Blau Blau

Contrabando de medicamentos cresce no país enquanto especialistas alertam para os riscos de produtos sem registro e com substâncias ainda em fase de pesquisa

O avanço do mercado clandestino de medicamentos para emagrecimento acendeu um alerta entre autoridades brasileiras. Produtos comercializados de forma ilegal, muitos deles contendo substâncias ainda em desenvolvimento científico, estão entrando no país principalmente pela fronteira com o Paraguai e já figuram entre os itens mais apreendidos pelos órgãos de fiscalização.

Levantamentos recentes apontam que esses medicamentos passaram a ocupar a segunda posição entre os produtos de maior volume de apreensões na região de Foz do Iguaçu, ficando atrás apenas dos aparelhos celulares. O crescimento expressivo do contrabando mobilizou operações de fiscalização em rodovias e pontos de entrada no território nacional.

Durante uma dessas ações, agentes localizaram medicamentos escondidos em um veículo que havia cruzado a fronteira. Entre os produtos apreendidos estavam versões comercializadas como retatrutida, substância que permanece em fase final de estudos clínicos e ainda não foi liberada para uso comercial pelo laboratório responsável pelo seu desenvolvimento.

As apreensões revelam diferentes estratégias utilizadas pelos criminosos para transportar as cargas, incluindo compartimentos ocultos em veículos, motores, escapamentos, caminhões e até no corpo dos transportadores. Em uma única ocorrência, mais de trinta mil unidades foram retiradas de circulação.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, nenhuma caneta emagrecedora produzida no Paraguai possui autorização para ser vendida no Brasil. Como esses produtos não passaram pelo processo de avaliação exigido no país, não existem garantias sobre sua eficácia, qualidade ou segurança.

A retatrutida é estudada como uma possível alternativa para o tratamento da obesidade e do diabetes por atuar em hormônios relacionados ao metabolismo e ao controle do apetite. Entretanto, especialistas ressaltam que qualquer versão comercializada atualmente não corresponde ao medicamento oficial que ainda está sendo desenvolvido.

O próprio laboratório responsável pelas pesquisas informou que os produtos encontrados no mercado clandestino apenas tentam reproduzir a estrutura da molécula em estudo, sem qualquer comprovação de equivalência ou de resultados clínicos.

Além da ausência de registro, especialistas alertam que não há como assegurar quais substâncias realmente estão presentes nas embalagens vendidas ilegalmente, nem as condições de fabricação, armazenamento e transporte desses produtos.

Uma análise laboratorial identificou alterações na composição de uma das amostras comercializadas como retatrutida, o que reforça a preocupação de pesquisadores sobre possíveis perdas de eficácia e aumento dos riscos à saúde dos consumidores.

Os efeitos adversos também chamam a atenção. Um paciente que utilizou uma dessas substâncias apresentou tremores, queda da glicose, náuseas, vômitos, aceleração dos batimentos cardíacos e precisou receber atendimento hospitalar poucos dias após a aplicação.

O crescimento desse mercado ilegal também foi registrado em outras regiões do país. Nos últimos meses, operações da Receita Federal apreenderam cerca de uma tonelada de medicamentos para emagrecimento enviados da China ao Brasil, além do fechamento de fábricas clandestinas em diferentes estados.

Diante do aumento das ocorrências, as autoridades reforçam que medicamentos para emagrecimento devem ser adquiridos apenas em estabelecimentos autorizados, mediante prescrição médica e acompanhamento profissional, evitando produtos vendidos por canais irregulares ou sem registro sanitário.