Por Alex Blau Blau
Autoridades precisam acompanhar a evolução social e histórica do país
A fala do governador de Minas Gerais, Mateus Simões, ao recorrer à expressão “inveja branca” em um evento oficial, não pode ser tratada como um detalhe irrelevante ou um simples hábito de linguagem. O episódio revela uma desconexão preocupante entre quem ocupa cargos de liderança e o nível de consciência social que se espera dessas posições.
O Brasil não é um país que pode se dar ao luxo de ignorar o peso das palavras. Foram mais de três séculos de escravidão, seguidos por um processo incompleto de inclusão da população negra. Nesse contexto, expressões que associam o “branco” a algo positivo não surgem por acaso. Elas são parte de uma estrutura simbólica que reforça desigualdades e normaliza hierarquias raciais, ainda que de forma sutil.
Quando uma autoridade pública utiliza esse tipo de expressão, a questão deixa de ser individual e passa a ser institucional. Não se trata apenas do que foi dito, mas de quem disse e do lugar que essa pessoa ocupa. Um governador não fala como um cidadão comum em uma conversa privada. Ele representa um estado inteiro, influencia discursos e contribui para moldar comportamentos.
Há um ponto que precisa ser enfrentado: falta letramento social a parte da elite política brasileira. E aqui não se fala de escolaridade formal, mas de compreensão histórica, sensibilidade cultural e responsabilidade no uso da linguagem. Em pleno 2026, já não é aceitável alegar desconhecimento sobre o impacto de termos que há anos vêm sendo debatidos e questionados por movimentos sociais, pesquisadores e pela própria sociedade.
A reação negativa não surgiu por exagero. Ela reflete um cansaço acumulado diante da repetição de erros que poderiam ser evitados com um mínimo de atenção e preparo. Espera-se de líderes públicos mais do que gestão administrativa. Espera-se postura, atualização e compromisso com valores que promovam respeito.
Não basta governar bem sob critérios técnicos se o discurso ainda carrega marcas de um passado excludente. A linguagem também é uma ferramenta de poder, e seu uso descuidado contribui para perpetuar visões ultrapassadas.
O episódio deveria servir como ponto de inflexão, não apenas para o governador Mateus Simões, mas para toda a classe política. Rever a forma de se expressar não é um gesto de fraqueza, mas de responsabilidade. O Brasil já avançou demais no debate público para aceitar que figuras de liderança permaneçam alheias a isso.
Respeito não é um detalhe. É um princípio básico de quem pretende representar uma sociedade diversa, desigual e ainda marcada por feridas abertas da sua própria história.






