Início Brasil Escolas privadas de medicina criadas após lei federal concentram piores resultados

Escolas privadas de medicina criadas após lei federal concentram piores resultados


Da redação

Faculdades de medicina privadas do interior, criadas após a Lei do Mais Médicos de 2013, concentram os piores resultados na primeira edição do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), divulgado na segunda-feira (19). Entre as 24 instituições com nota 1 (conceito crítico), apenas uma é pública e 18 foram abertas após 2014. Das 83 com nota 2 (conceito insuficiente), só quatro são públicas e 45 surgiram depois desse período.

Dos 107 cursos com conceitos 1 e 2 — 30,7% dos participantes —, 63 funcionam em cidades com menos de 300 mil habitantes, reunindo quase 14 mil alunos. O Brasil dobrou o número de faculdades de medicina em dez anos, passando de 252 para 505, das quais 77% das vagas estão na rede privada, segundo o MEC. Cerca de 6.500 vagas foram criadas em municípios com menos de 100 mil habitantes, 25% do total aprovado desde 2013.

Apesar da exigência legal de análise prévia do MEC, muitas instituições privadas abriram cursos por meio de liminares judiciais, sem avaliação adequada. Segundo o MEC, a relação entre judicialização e notas baixas ainda está em análise. O STF confirmou, no ano passado, que o MEC detém a prerrogativa exclusiva para autorizar novos cursos de medicina.

Mario Scheffer, pesquisador da USP, destaca que as escolas mal avaliadas são, em sua maioria, frutos da expansão pós-Lei do Mais Médicos e da judicialização. Para Mário Dal Poz, da Uerj, a estratégia de interiorização não se baseou em evidências e gerou escolas sem infraestrutura suficiente, com baixa fixação de médicos nessas regiões. Ele defende sanções severas, como suspensão e até fechamento de faculdades com desempenho crítico.

Segundo o MEC, punições vão de suspensão do ingresso a proibição do aumento de vagas, com processos administrativos abertos para defesa das escolas. Para Scheffer e Dal Poz, alternativas como educação continuada e ampliação da residência médica serão necessárias, diante da formação anual de cerca de 50 mil médicos e os riscos para a população mais vulnerável.