Em entrevista para o Conectado ao Poder, o estrategista político e presidente do IRIA analisa os bastidores do ComPol, aponta os riscos dos “fenômenos emergentes” da Inteligência Artificial e revela novas tecnologias de defesa reputacional desenvolvidas em parceria com a laboratórios e empresas de tecnologia brasileiras.
O cenário político e institucional brasileiro vive um dos momentos mais complexos de sua história recente. Com a velocidade avassaladora das inovações tecnológicas e a proximidade de novos pleitos eleitorais, a linha entre o fato e a ficção tornou-se perigosamente tênue. Para debater esse ecossistema de alta volatilidade, conversamos com Marcelo Senise, renomado estrategista, especialista em neuromarketing, autor do livro Blindagem Essencial e presidente do IRIA (Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA).
Recém-chegado do ComPol (Congresso de Comunicação Política e Institucional), onde suas teses foram o centro das atenções de consultores e tomadores de decisão, Senise traz um diagnóstico alarmante sobre a falta de regulamentação da Inteligência Artificial (IA), mas também aponta caminhos inovadores. À frente do IRIA, ele revela o desenvolvimento de um arsenal tecnológico inédito voltado para a proteção da verdade e da integridade pública.
Confira a entrevista exclusiva:
Marcelo, você participou recentemente do ComPol, um dos maiores eventos de comunicação política do país. Olhando para os debates e para as dores que o mercado apresenta hoje, qual é o principal diagnóstico que você faz sobre o atual momento da comunicação política no Brasil?
Marcelo Senise: O principal diagnóstico é que muitos players ainda estão jogando o jogo de anos atrás, enquanto a realidade atual exige um nível de sofisticação completamente diferente. A comunicação política no Brasil atingiu um ponto de saturação de ruído. Hoje, não basta apenas ter alcance ou volume de postagens; o grande desafio é a conquista da atenção legítima e a construção de narrativas que resistam ao tribunal da internet. Percebo que o mercado finalmente entendeu que marketing político não se resume a estética ou dancinhas de redes sociais. É ciência, é psicologia de consumo, é leitura de dados e, acima de tudo, é estratégia de sobrevivência em um ambiente hiperconectado.
Durante o evento, muito se falou sobre o impacto da Inteligência Artificial e a velocidade com que as crises reputacionais se espalham. Em termos práticos, como o ecossistema do ComPol recebeu as teses que você defende no seu livro, Blindagem Essencial?
Marcelo Senise: A recepção foi excelente porque o mercado está sentindo a dor da vulnerabilidade na pele. Com o avanço avassalador da Inteligência Artificial — que agora cria deepfakes e narrativas falsas em segundos —, os profissionais de comunicação perceberam que os métodos tradicionais de assessoria de imprensa e monitoramento básico já não dão conta. Quando apresentei os conceitos do Blindagem Essencial no COMPOL, a virada de chave foi mostrar que a tecnologia que ataca também precisa ser a tecnologia que defende. Houve um entendimento claro de que a blindagem não é um custo, mas o investimento mais estratégico que um mandato, um partido ou uma figura pública pode fazer hoje.
Estamos entrando no ciclo das próximas eleições sob o fantasma de uma total falta de regulamentação profunda sobre o uso da Inteligência Artificial. Como presidente do IRIA (Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA), qual é o tamanho real do perigo que a democracia brasileira está correndo? E como os chamados “fenômenos emergentes” da tecnologia pioram esse cenário?
Marcelo Senise: O perigo é existencial e inédito. O ecossistema político brasileiro ainda não entendeu que mudamos de patamar: saímos da era da mentira artesanal para a era da mentira sintética em escala industrial. Sem uma regulamentação ágil e severa — pauta que defendemos incansavelmente no IRIA —, a disputa deixa de ser uma guerra de narrativas e passa a ser uma guerra de realidades fabricadas. O ataque agora vem com estética de verdade, voz clonada idêntica e circulação massiva em segundos. A assimetria é brutal: de um lado, temos o rito lento da Justiça Eleitoral e os prazos processuais; do outro, robôs operando em velocidade algorítmica.
É aí que entram os fenômenos emergentes, que são o aspecto mais assustador e menos debatido da IA. Na ciência da computação, fenômeno emergente é quando um sistema de IA desenvolve habilidades, lógicas e comportamentos que não foram programados deliberadamente pelos seus criadores. Quando aplicamos isso à guerrilha eleitoral sem freios jurídicos, significa que as máquinas podem começar a cruzar dados públicos e reações emocionais em tempo real para produzir e disparar conteúdos hiperpersonalizados de forma autônoma, criando pânicos morais ou crises reputacionais artificiais sem que haja um comando humano direto controlando cada passo. A desinformação ganha vida própria. O verdadeiro risco não é apenas a circulação do conteúdo falso, é a perda total do controle sobre o que é real, esvaziando o debate público e minando a confiança nas próprias instituições.
Sabendo desse cenário, o que o IRIA tem feito de prático para contra-atacar essa ameaça e proteger as lideranças e as instituições?7
Marcelo Senise: No IRIA, nós entendemos que a regulação jurídica é fundamental, mas ela precisa andar de mãos dadas com a tecnologia de ponta. Por isso, o Instituto vem desenvolvendo, em colaboração estreita com grandes parceiros da área de tecnologia, como a Polijetro e a Votli, sistemas avançados de defesa reputacional. Estamos criando soluções sofisticadas capazes de identificar anomalias algorítmicas, rastrear a origem de ataques sintéticos e neutralizar narrativas coordenadas antes que elas tomem proporções irreversíveis. Essas ferramentas contribuirão de forma singular neste arsenal de defesa, garantindo que os líderes tenham o escudo tecnológico necessário para enfrentar o submundo da desinformação.
Entrando justamente no cerne da sua obra, o que diferencia essa verdadeira estratégia de blindagem tecnológica e metodológica de um simples gerenciamento de danos reativo?
Marcelo Senise: A diferença é a mesma que existe entre a medicina preventiva e uma cirurgia de emergência na UTI. O gerenciamento de danos reativo é quando o incêndio já começou, a reputação já está sangrando e você corre para apagar o fogo — o que quase sempre deixa sequelas profundas na imagem pública. A Blindagem Essencial, agora potencializada pelas ferramentas que estamos desenhando com a Polijetro e a Votli, trabalha na raiz da percepção humana. Nós mapeamos as vulnerabilidades antes que elas virem munição na mão do adversário, criamos ecossistemas de resposta automatizada e estruturamos uma narrativa de base tão sólida que, quando o ataque vem, o público inconscientemente tende a rejeitar a mentira. Blindar é criar anticorpos reputacionais; reagir é apenas tentar estancar o sangue.
Para fechar, Marcelo: olhando para frente, quais são os maiores desafios que os novos líderes e gestores públicos vão enfrentar para manter a credibilidade intacta em um ambiente tão hostil?
Marcelo Senise: O maior desafio será vencer a era da pós-verdade automatizada. Estamos lidando com fábricas de desinformação hiperpersonalizadas, que entregam mentiras sob medida para os medos e preconceitos de fatias específicas do eleitorado. Manter a credibilidade intacta vai exigir dos líderes menos foco em vaidade digital — como likes e visualizações fúteis — e muito mais foco em consistência de posicionamento, transparência radical e inteligência de defesa. O eleitor desenvolveu um detector de mentiras muito refinado. No fim do dia, a melhor blindagem contra a desinformação continuará sendo a verdade bem comunicada, apoiada por uma estrutura técnica robusta que não permita que a mentira corra sem freio.



