
Acabamos de testemunhar um marco histórico na política do Brasil: o primeiro grande duelo de narrativas travado abertamente no campo da inteligência artificial. Se o país já se acostumou à divisão exacerbada por partidos, redes sociais e influenciadores, agora observa a polarização ser elevada a um novo patamar — sofisticada, dramatizada e viralizada por algoritmos que sabem exatamente o que emociona, choca e engaja. O confronto recente entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e a federação União Progressista (UB+PP) é mais do que um episódio isolado: é só o prelúdio, o aquecimento, da era de campanhas políticas mediadas e potencializadas por IA.
O roteiro dessa batalha digital foi rapidamente assimilado pelo eleitorado: com o governo Lula desgastado pela queda de popularidade, o PT apostou tudo numa narrativa clássica, agora turbinada pela tecnologia. Um vídeo criado com IA ganhou milhares de compartilhamentos nas redes, representando pobres curvados sob sacos gigantes de “impostos”, enquanto executivos ricos passeiam de maneira leve, quase descompromissados, com pequenas cargas. O efeito visual, impossível sem IA, não apenas ilustra, mas dramatiza uma tese: os ricos contribuem pouco, os pobres sustentam o Brasil — e a resposta seria taxar super-ricos, bancos, gigantes do jogo, em nome da “justiça social”. A mensagem, embalada em perfeição digital, serve tanto para alimentar a base quanto para tentar reverter uma trajetória de perda de apoio popular.
A reação dos adversários da União Progressista foi imediata e usou a mesma moeda: um vídeo também criado por IA, ironizando e invertendo a narrativa petista. Agora, o peso que recai sobre o cidadão comum não seria culpa dos ricos, mas de um “Estado inchado”, ineficiente, gastador — uma máquina pública que, segundo a peça, asfixia o contribuinte e atrasa o progresso. “Tudo é artificial, até a inteligência das propagandas”, alfineta o narrador, marcando o vídeo com uma crítica à superficialidade e ao suposto enviesamento emocional das mídias rivais.
O que surpreende — e preocupa — nesse episódio inaugural é constatar que, ao se depararem com a potência nova da IA, os partidos não buscaram consensos, propostas concretas ou diálogo qualificado. Apostaram novamente no velho atalho da polarização: de um lado, a construção de vilões e de vítimas, de outro, a busca pelo antagonismo fácil que atiça paixões, viraliza conteúdos e aprofunda divisões históricas. A inteligência artificial, longe de servir ao esclarecimento, foi transformada em amplificador de maniqueísmos.
Este é apenas o começo. O uso da IA nas campanhas, recém-testado, já demonstrou o poder de fabricar realidades digitais tão convincentes quanto simplificadoras. À medida que nos aproximamos das eleições gerais, a tendência é que esses duelos se tornem mais frequentes, envolventes e — perigosamente — incisivos, desenhando fronteiras emocionais cada vez mais rígidas entre eleitores.
Cabe ao eleitorado, diante desse novo cenário, desenvolver um olhar crítico e desconfiado, questionar as imagens perfeitas demais, buscar informações além do espetáculo visual e rejeitar a tentação de ceder à manipulação digital. Porque, se a inteligência artificial está revolucionando a comunicação política, ela também impõe um desafio brutal: o de não deixar que o Brasil seja, uma vez mais, sequestrado pelo ciclo vicioso da polarização – agora, potencializado pela tecnologia.
Marcelo Senise – Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial. Sociólogo e marqueteiro político. Fundador da Agencia Social Plau e CEO da CONECT IA. Especialista em inteligência artificial aplicada na Comunicação Política.Twitter:@SeniseBSB | Instagram:@marcelosenise





