Figura central da política do Distrito Federal, pioneiro em debates que só anos depois o país compreenderia e presença determinante na formação de toda uma geração, Paulo Fernando deixa um legado raro — desses que não cabem em homenagens, apenas na memória viva de quem teve a sorte de caminhar ao seu lado
O falecimento de Paulo Fernando representa uma perda profunda para Brasília. Não apenas pela relevância parlamentar que conquistou, mas pela inteligência rara, pela criatividade improvável e pela capacidade incomum de provocar transformações onde quer que estivesse. Para mim, essa perda atravessa décadas de convivência, trabalho, embates, cumplicidade e uma amizade que resistiu ao tempo, à política e às divergências inevitáveis entre pessoas que pensam — e sentem — de forma intensa.
Nos aproximamos ainda durante a Constituinte, quando lutávamos pelo voto facultativo aos 16 anos, alimentados pela convicção juvenil de que a democracia precisava respirar a voz dos mais jovens. Só voltaríamos a nos reencontrar politicamente anos depois, nas eleições presidenciais: ele, pelo PDS, defendendo Paulo Maluf; eu, pelo PRN, envolvido na campanha de Fernando Collor. Estávamos em lados opostos, mas nunca em trincheiras inimigas. Havia debate duro, sim, mas também respeito, ironias compartilhadas, provocações inteligentes e uma admiração silenciosa que crescia à medida que descobríamos, um no outro, a mesma inquietação política.
Paulo era brilhante — e, por vezes, explosivamente ousado. Entre tantas histórias, uma se transformou em folclore político: sem aviso, publicou no Correio Braziliense um anúncio de contratação usando o endereço do nosso comitê. Quando chegamos, mais de 800 pessoas aguardavam na fila. Foram mais de 1.500 ao longo do dia. O caos que aquilo gerou é indescritível. À época, fiquei furioso; hoje, rio ao lembrar. Era assim que Paulo operava: com criatividade afiada, senso estratégico incomum e um tipo de coragem que beirava o temerário — e que, justamente por isso, dava certo.
Sua capacidade de articulação foi decisiva para a instalação da Comissão Suprapartidária da Juventude no Congresso Nacional. Assumiu a Secretaria-Geral na minha gestão e garantiu avanços que, sem sua firmeza e insistência, simplesmente não aconteceriam. Divergíamos com frequência, como só jovens intensos e idealistas divergem, mas havia uma confiança mútua que jamais vacilou.
Durante meu período como embaixador da juventude da ONU, entre 1993 e 1996, ele foi apoio constante — uma mente estratégica que via além do óbvio, que lia cenários com precisão e que sempre oferecia uma perspectiva que desarmava facilidades e enriquecia decisões. Mais tarde, conduziu minha campanha à Câmara Legislativa com os poucos recursos que tínhamos à época. Foram 1.258 votos, suficientes para a segunda suplência. Isso diz menos sobre mim e mais sobre o talento político que ele carregava.
Também fui eu quem o incentivou a dar o passo para além das assessorias e enfrentar a vida pública diretamente, algo que — eu sabia — ele faria com excelência. E fez. A Câmara Legislativa ganhou, com sua entrada, um dos parlamentares mais preparados e intelectualmente inquietos de sua geração.
Há ainda um aspecto pouco lembrado, mas que não pode ser ignorado: Paulo foi pioneiro no debate legislativo sobre Inteligência Artificial no Brasil. Poucos registram que foi dele a primeira audiência pública na Câmara dedicada ao tema e dele partiu a provocação inicial para a criação de uma Comissão Especial voltada à regulamentação da IA. Hoje, quando o país inteiro se debruça sobre o assunto, é preciso reconhecer que Paulo estava anos à frente.
Nosso último encontro foi na semana passada, na lanchonete do Anexo III da Câmara dos Deputados — o mesmo cenário de tantas conversas da juventude. Ele analisava números, mapas eleitorais, possibilidades de seguir no Republicanos ou migrar para o PL. Fizemos como sempre fizemos: desmontamos cenários, reconstruímos estratégias, e concluímos que o Republicanos oferecia as melhores condições para sua reeleição. Nunca o vi tão preparado, tão articulado, tão consciente de que seu momento político finalmente havia chegado. Estava pronto como raras vezes se está na vida.
A Brasília que acordou após sua partida é uma cidade um pouco mais silenciosa — e politicamente mais pobre. Perde uma mente afiada, um articulador que transitava com naturalidade entre bastidores e plenário, um estrategista de talento raro. Perco, pessoalmente, um mestre, um parceiro de jornada, um amigo insubstituível.
As pessoas como Paulo não desaparecem: permanecem nos espaços que ajudaram a construir, nos debates que inauguraram, nas vidas que tocaram e nos caminhos que abriram. Permanecem, sobretudo, na memória dos que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.
Siga em paz, meu amigo.
E obrigado pelo tanto que deixou — na política, na cidade, e em mim.
Marcelo Senise- Sociólogo e marqueteiro politico. Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA







