Da redação
Pesquisadores identificaram um novo tipo de célula visual em peixes de águas profundas que desafia o entendimento tradicional sobre a visão dos vertebrados. Por mais de um século, acreditava-se que esses animais utilizavam apenas dois tipos de células: bastonetes para luz fraca e cones para luz intensa e cores. No entanto, estudo liderado por Lily Fogg, da Universidade de Helsinque (Finlândia), revelou a existência de células híbridas que misturam forma de bastonete com maquinaria molecular e genes típicos dos cones. O trabalho foi publicado em 11 de junho na revista Science Advances.
A pesquisa analisou larvas de três espécies encontradas no mar Vermelho: Maurolicus mucronatus, Vinciguerria mabahiss e Benthosema pterotum. No caso de M. mucronatus, as células híbridas permanecem durante toda a vida. Já nas outras duas espécies, a dicotomia usual entre bastonetes e cones se estabelece na fase adulta.
As larvas, quase microscópicas, vivem em profundidades entre 20 e 200 metros, um ambiente com pouca luz. Segundo Fogg, nessas condições, os vertebrados normalmente ativam ambos os tipos celulares tradicionais, mas sem plena eficiência. A solução evolutiva encontrada por esses peixes foi o desenvolvimento do fotorreceptor híbrido. “Mostramos que os fotorreceptores podem combinar características estruturais e moleculares inesperadas”, afirmou a cientista.
O coautor Fabio Cortesi, neurocientista da Universidade de Queensland (Austrália), destacou que a descoberta revela a flexibilidade e potencial de adaptação dos sistemas visuais dos vertebrados. Ele acrescentou que não ficaria surpreso se células semelhantes fossem identificadas em outros grupos, inclusive de espécies terrestres.
Esses peixes, que medem entre 3 e 7 cm, emitem bioluminescência azul-esverdeada para camuflagem e realizam grandes migrações diárias, sendo fonte de alimento para predadores marinhos. Para Cortesi, é fundamental preservar o ambiente das profundezas para futuras descobertas.






