Da redação
Na metade da década passada, Joana* casou-se com um agente de segurança e, apenas cinco meses após a celebração na igreja e no cartório, passou a sofrer agressões. Impedida de trabalhar e de socializar, Joana relata episódios de ciúmes, violência física e psicológica, marcados pelo controle total do marido policial civil, que usava o distintivo para intimidá-la e impedir denúncias. “Quando existe essa situação de violência doméstica e familiar, se há uma posição hierárquica superior, isso dificulta. Quando é da polícia, isso fica ainda mais latente”, afirmou.
Segundo dados obtidos pelo Jornal de Brasília via Lei de Acesso à Informação, a Polícia Civil do DF instaurou 86 inquéritos contra agentes por violência doméstica entre 2020 e 2025, com base na Lei Maria da Penha. No mesmo período, foram abertas 53 sindicâncias. Fontes da corporação admitem que a legislação administrativa é desatualizada, mas apontam avanços, como a criação da Divisão Integrada de Atendimento à Mulher (DIAM).
A delegada Karen Langkammer, atual diretora da DIAM, também foi vítima de violência praticada por um colega da Polícia Civil. Em 2023, ela foi baleada no pé por Rodrigo Rodrigues Dias dentro de um bar, após intervir em uma agressão dele contra a companheira. Dias foi condenado a três anos de prisão em 2025, mas o processo segue em recurso. “Se ele tivesse sido punido quando agrediu a esposa, não teria feito isso comigo”, disse Langkammer.
Joana deixou o país em 2017 por segurança e, ao retornar, voltou a ser intimidada. Ela afirma que policiais que usam o cargo para cometer crimes geram medo e desconfiança. Dados da SSP-DF revelam que, desde 2015, foram registrados 236 feminicídios no DF, sendo 70,8% dentro da residência da vítima; 75,2% dos agressores já tinham antecedentes criminais.
Os Núcleos Integrados de Atendimento à Mulher (NUIAM) acolheram 988 mulheres nos seis primeiros meses de 2025, quase igualando todo o atendimento de 2024 (1.102 casos). Para Langkammer, o dado reflete maior confiança das mulheres na Polícia Civil. “A gente quer tirar as maçãs podres porque elas efetivamente mancham toda a imagem de uma corporação”, concluiu.
*Nome fictício para preservar a identidade.






