Início Política Quando deputados priorizam o engajamento e projetos viram confete eleitoral

Quando deputados priorizam o engajamento e projetos viram confete eleitoral


Da redação

O Congresso Nacional e outras casas legislativas do Brasil têm apresentado projetos que ganham destaque nas redes sociais, mas geram pouco impacto prático para os cidadãos. Levantamento da Agência Pública, divulgado no fim de 2023, aponta que metade dos 20 deputados federais com maior engajamento no Instagram não aprovou nenhum projeto autoral desde o início daquele ano. Entre os que conseguiram passar alguma proposta, muitas têm caráter apenas simbólico.

A lógica do ativismo digital se sobrepõe à função legislativa tradicional, especialmente com a proliferação de projetos baseados em pautas ideológicas, que rapidamente ganham visibilidade, mas muitas vezes são rejeitados ou arquivados. Em 2025, o tema dos “bebês reborn” — bonecos hiper-realistas — dominou as redes, motivando projetos de Zacharias Calil (União Brasil-GO), Rosângela Moro (União Brasil-SP) e Daniel de Castro (PP-DF), este último propondo multa de até R$ 10 mil para quem tumultuar filas do SUS usando as réplicas.

Outro ponto de destaque foi a ofensiva da direita contra a linguagem neutra em documentos oficiais. Em 2023, Thiago Manzoni (PL-DF) apresentou emenda para proibir o “dialeto não-binário” no Distrito Federal, sob críticas a “pautas de costumes”. Já Rafael Ranalli (PL-MT) propôs em 2024 a “Lei do Abate”, sugerindo medalhas a policiais que matassem criminosos em serviço.

Na Câmara Legislativa do Distrito Federal, Daniel de Castro também apresentou moções de repúdio ao show de Madonna, por suposta apologia à homossexualidade, e contra Xuxa Meneghel, após declarações contrárias à Bíblia. Essas iniciativas, assim como projetos para homenagear personalidades, como Bruno Mars, partem de uma estratégia de busca por visibilidade digital.

Tentativas de concessão de título de cidadão honorário, como a do deputado Joaquim Roriz Neto (PL-DF) ao ex-presidente americano Donald Trump, mostram que a viralização nas redes sociais muitas vezes pesa mais nas decisões políticas do que o mérito das propostas. A repercussão negativa levou Roriz Neto a recuar, ilustrando a influência do “like” no processo legislativo atual.