Por Marcelo Senise

A crise diplomática recente entre Brasil e Estados Unidos ganhou os holofotes guiada, superficialmente, por justificativas de ordem político-ideológica apresentadas pelo governo norte-americano. No entanto, uma análise rigorosa revela que tais argumentos são apenas o pano de fundo de uma disputa muito mais profunda e estratégica: o verdadeiro núcleo da tensão reside na ofensiva do Brasil para regulamentar o poder das Big Techs em seu território — tema explicitamente citado na carta do então presidente Donald Trump. Ao mencionar diretamente as iniciativas brasileiras de regulação e a responsabilização dessas empresas, Trump deixou claro que a proteção dos interesses das gigantes tecnológicas americanas é, de fato, a questão central da problemática.
Essa disputa pelo controle do ambiente digital ganhou contornos ainda mais agudos com o protagonismo do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que se mostrou um obstáculo considerável à atuação livre das Big Techs no Brasil. Moraes defende publicamente a necessidade de responsabilização das plataformas digitais por postagens ilegais e a moderação ativa de conteúdos, inclusive contra práticas que ameacem a democracia. Como resposta, veio não só a crescente resistência das próprias empresas, como também a perseguição institucional norte-americana — cristalizada nas sanções impostas a Moraes sob alegações de abuso de poder, quando, em verdade, trata-se de um claro ataque à soberania nacional e à tentativa de impor limites regulatórios nesse novo campo de poder.
O contexto é complexo e emblemático do nosso tempo. De um lado, os Estados Unidos buscam proteger suas megacorporações, que não apenas concentram capital, mas definem fluxos de dados globais, consumo e até narrativas políticas. De outro, o Brasil, diante do avanço irrefreável da inteligência artificial e da digitalização da vida, percebe a urgência de uma legislação robusta e soberana que coloque o interesse público no centro do debate — principalmente diante de episódios em que algoritmos e políticas de moderação das plataformas moldam a própria experiência democrática nacional. Nesse tabuleiro de altíssimos riscos, em que cada movimento reverbera nos bastidores da geopolítica e impacta diretamente empregos, inovação e direitos civis, a atuação de Geraldo Alckmin se destaca como verdadeira âncora de sensatez.
Diante das ameaças tarifárias e da agressividade dos lobbies — que, inclusive, influenciaram diretamente decisões estratégicas da Casa Branca — foi Alckmin quem se colocou como interlocutor confiável de todas as partes. Ele se reuniu com representantes das Big Techs, abriu espaço para suas pautas, mas não cedeu ao discurso fácil de demonizar nem santificar essas empresas. Alckmin entende que a economia digital é impulsionada tanto pelo capital dessas corporações quanto pelo direito da sociedade de decidir democraticamente os rumos dessa transformação. Em um gesto raro na política contemporânea, rejeitou o partidarismo e defendeu um debate de escuta plural, com a participação ativa de sociedade civil, academia, setor privado e Judiciário.
Regulamentar a inteligência artificial, segundo o vice-presidente, não é opção, mas imperativo — e não apenas para “controlar” tecnologias, mas para estabelecer padrões mínimos de ética, transparência, inovação e respeito aos direitos fundamentais. Alckmin reitera: só assim é possível proteger a democracia, garantir a livre concorrência, dar segurança jurídica à inovação e evitar que valores societários sejam sufocados por algoritmos opacos e interesses privados. Sua abordagem não é de antagonismo cego nem de entrega fácil aos gigantes tecnológicos. Com firmeza e equilíbrio, Alckmin tem ressaltado que há mais convergências do que divergências entre governo e setor, defendendo a regulação como instrumento para criar um ecossistema inovador, atraente, competitivo, mas também pautado pelo interesse público brasileiro.
O episódio do tarifaço, longe de ser apenas um choque comercial, explicita um mundo em que tecnologia, política e poder caminham entrelaçados. No mesmo movimento em que Trump expõe motivações políticas ao defender seu aliado Bolsonaro, as Big Techs orientam agendas e negociam seu espaço de influência extraterritorialmente. Assim, a decisão de Alckmin de buscar diálogo e construir pontes — e não muros — é talvez o gesto político mais sofisticado que se possa exigir neste século. Ele se abre para o novo, mas exige respeito à soberania e à democracia. Ele reconhece a força da inovação privada, mas não abdica do dever público de garantir direitos, transparência e pluralismo.
Em um mundo cada vez mais governado por algoritmos e interesses privados mascarados de neutralidade tecnológica, o Brasil se vê forçado a decidir qual legado deseja deixar para as próximas gerações. Ao expor que as tensões políticas são apenas a fachada de uma batalha muito mais profunda pelo controle da informação, a crise com os Estados Unidos inscreve o país no epicentro do maior debate do século: quem escreve as regras do futuro digital?
Sob a liderança lúcida e corajosa de Geraldo Alckmin — que recusa atalhos fáceis, partidarismos e cede apenas à racionalidade do interesse público — o Brasil deixa de ser coadjuvante e assume de vez o protagonismo global. Ao desafiar os gigantes tecnológicos com firmeza, porém sem demonizá-los; ao recusar submissão aos ditames estrangeiros, mas sem isolamento; Alckmin ensina que a verdadeira soberania nasce do diálogo, da transparência e da capacidade de harmonizar inovação e responsabilidade social. Não se trata apenas de proteger a democracia brasileira: trata-se de apresentar ao mundo um novo modelo de convivência entre tecnologia, poder e sociedade.
O que parecia um revés para o Brasil, revela-se, na verdade, como oportunidade histórica: uma nação que, em vez de dobrar-se aos interesses das Big Techs ou às pressões internacionais, se propõe a ser laboratório e referência mundial em regulação digital. Nos arquivos dessa crise estará registrado não apenas um embate entre governos, mas o prenúncio de uma nova ordem onde ética, pluralidade e justiça digital podem, enfim, prevalecer sobre a lógica implacável dos algoritmos. O Brasil, inesperadamente, escreve o roteiro que muitos países ainda terão que decifrar.Marcelo Senise –Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial Sociólogo e marqueteiro político Fundador da Agência Social Play e CEO da CONECT IA ]Especialista em inteligência artificial aplicada na Comunicação Política
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