Por Sandro Gianelli
Dados oficiais mostram que capital brasileira tem taxa de homicídios muito menor que Washington, citada pelo próprio presidente dos EUA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou dados incorretos ao classificar Brasília entre as “capitais mais violentas do mundo” durante anúncio, nesta segunda-feira (11/8), de intervenção federal na segurança pública de Washington. Em discurso na Casa Branca, ele exibiu um gráfico comparando a capital norte-americana a outras cidades, incluindo Brasília, usando números inflados sobre homicídios no Distrito Federal.
Segundo Trump, a capital brasileira teria registrado 13 homicídios por 100 mil habitantes, contra 41 em Washington. No entanto, dados da Secretaria de Segurança Pública do DF apontam que, no ano passado, houve 207 homicídios — o equivalente a 6,9 por 100 mil habitantes, considerando a população estimada em 3 milhões de pessoas, o menor índice desde 1977. Já o Atlas da Violência, referência nacional, indica taxa de 11 por 100 mil, ainda muito abaixo do número apresentado pelo presidente americano.
Mesmo com os dados corretos, a comparação ainda coloca Washington em posição pior. Em 2024, a capital norte-americana registrou cerca de 180 homicídios, segundo o Departamento de Polícia Metropolitana. Com uma população de 670 mil habitantes, isso representa taxa aproximada de 27 por 100 mil — quase quatro vezes maior que a do Distrito Federal. Em 2023, Brasília teve 12,3 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto Washington chegou a 39,8.
A declaração de Trump serviu para justificar o decreto de estado de emergência na segurança pública de Washington, medida que coloca a polícia local sob controle federal. Ele também anunciou o envio de 800 integrantes da Guarda Nacional para operações “massivas de execução” contra gangues, tráfico de drogas e redes criminosas.
“Nós queremos segurança em Washington. […] A taxa de homicídios em Washington é maior que em Bogotá, Cidade do México e em outros lugares que você escuta dizer sobre serem os piores lugares do mundo”, disse Trump.
Ao recorrer a dados incorretos, Trump não apenas distorceu a realidade da violência no Brasil, como também minimizou o problema enfrentado em sua própria capital. A omissão de números reais enfraquece a credibilidade do argumento e sugere uso político da comparação. Os índices oficiais mostram que, neste caso, a violência em Brasília é bem menor do que a que assombra Washington — e que, para corrigir os rumos da segurança pública, é preciso partir de diagnósticos corretos, não de distorções.




