Por Isabela Galvão
Dados do Ministério das Relações Exteriores revelam que a Europa concentra o maior número de ocorrências registradas pela rede consular, enquanto Estados Unidos aparecem na primeira posição entre os países
A violência doméstica e de gênero também acompanha milhares de brasileiras que vivem fora do país. Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que 1.631 ocorrências envolvendo brasileiras no exterior foram registradas pelos consulados em 2024, revelando um cenário que preocupa autoridades e evidencia a necessidade de ampliar os mecanismos de acolhimento às vítimas.
As informações integram o Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado em parceria com o Senado Federal, e permitem identificar onde está concentrada a maior parte das ocorrências que chegaram ao conhecimento da rede consular brasileira.
A Europa aparece como a região com maior número de registros, com 730 casos. Em seguida estão a América do Norte, com 412 ocorrências, e a América do Sul, com 356. Também foram contabilizados 56 registros na Ásia, 41 no Oriente Médio, 20 na África, oito na América Central e Caribe e outros oito na Oceania.
Quando a análise considera individualmente os países, os Estados Unidos ocupam a primeira posição, com 397 casos. A Bolívia aparece logo depois, com 258 registros, enquanto a Itália contabilizou 153.
Portugal teve 144 ocorrências, seguido pelo Reino Unido, com 102, Espanha, com 79, Irlanda, com 65, e Bélgica, com 43. Somente Itália, Portugal, Reino Unido, Espanha e Irlanda reuniram 543 registros.
Bolívia apresenta forte crescimento nas notificações
Um dos números que mais chamam atenção no levantamento está na Bolívia. O país passou de 28 ocorrências registradas em 2023 para 258 em 2024, crescimento de 821%.
O aumento, entretanto, não significa necessariamente que os episódios de violência tenham avançado na mesma proporção.
Parte da elevação das notificações é atribuída ao fortalecimento da estrutura de atendimento às brasileiras. A presença de uma profissional de psicologia especializada no Consulado Geral em Santa Cruz de la Sierra teria ampliado o acolhimento e contribuído para que mais mulheres procurassem ajuda e formalizassem as situações enfrentadas.
O dado demonstra também como uma rede de atendimento mais acessível pode revelar situações de violência que anteriormente permaneciam desconhecidas pelas autoridades.
Subnotificação ainda preocupa
Outro ponto importante do levantamento é a ausência de informações em diversos países. Em algumas regiões, grande parte das nações não apresenta qualquer ocorrência registrada contra brasileiras.
Na América Central e no Caribe, 87,5% dos países não possuem notificações. Na África, essa proporção chega a 67,7%. No Oriente Médio são 58,3% e, na Ásia, 57,9%.
Mesmo na Europa, onde está concentrado o maior volume de registros, 31,4% dos países não apresentam notificações.
A inexistência de ocorrências nos sistemas consulares, porém, não significa necessariamente ausência de violência. Os números representam somente os episódios que chegaram ao conhecimento das representações brasileiras.
Distância dos consulados, dificuldades de comunicação, desconhecimento sobre os serviços disponíveis e obstáculos para procurar ajuda podem contribuir para que parte das agressões permaneça fora das estatísticas oficiais.
Os dados reforçam a importância da presença consular e de estruturas especializadas de acolhimento para brasileiras que enfrentam situações de violência longe do país, principalmente porque muitas vítimas podem estar distantes de familiares e de suas redes tradicionais de apoio.



