A decisão da Meta de limitar o acesso à Biblioteca de Anúncios ameaça a integridade democrática e destaca a necessidade urgente de regulamentação e ação coletiva para preservar a transparência digital.
Por Marcelo Senise

A transparência na publicidade digital é um pilar essencial para garantir processos eleitorais justos e o controle eficaz do uso de recursos públicos. Recentemente, a Meta deu um passo alarmante ao restringir o acesso à sua Biblioteca de Anúncios, permitindo que apenas usuários logados no Facebook visualizem esses dados críticos. Esta decisão representa um retrocesso significativo, impondo barreiras para pesquisadores, jornalistas e agentes públicos que desempenham papéis fundamentais na fiscalização da integridade da propaganda paga nas redes sociais.
A Biblioteca de Anúncios da Meta é um repositório vital de informações sobre propaganda paga no Facebook e Instagram. Com a circulação de dinheiro público nessas plataformas, a legislação brasileira exige transparência total para permitir a devida fiscalização. Até 2024, qualquer cidadão podia acessar esses dados sem restrições, mas a mudança repentina em 2025, que agora exige uma conta ativa na rede social, transforma um recurso público em um serviço condicionado à inscrição na plataforma. Esta mudança levanta sérias questões sobre a legalidade da medida, uma vez que a Constituição Federal e leis como a Lei de Improbidade Administrativa e a Lei Eleitoral estabelecem a transparência como princípio fundamental na gestão de recursos públicos.
Forçar agentes públicos a criar perfis em uma plataforma privada para exercer suas funções de fiscalização pode ser interpretado como uma barreira inconstitucional ao controle social. Tal medida não é um caso isolado, mas parte de uma tendência mais ampla de retração do acesso a dados públicos nas redes sociais. Outras plataformas, como Twitter e Google, também têm restringido o acesso a informações anteriormente disponíveis gratuitamente. A centralização do controle de dados por essas empresas, muitas vezes sob o pretexto de proteger a privacidade, não pode ser a única resposta ao desafio da transparência digital.
É imperativo que governos, instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil pressionem por regulações mais robustas que garantam o acesso a dados essenciais para a fiscalização de processos democráticos. A inteligência artificial, enquanto amplia as possibilidades de personalização, também aumenta os riscos de reforço de bolhas informacionais, exigindo um debate mais profundo sobre o equilíbrio entre privacidade e transparência.
A decisão da Meta serve como um alerta sobre os perigos da privatização do acesso à informação pública. Sem ferramentas acessíveis para monitorar o ambiente digital, pesquisadores, jornalistas e cidadãos ficam em desvantagem, comprometendo a capacidade de compreender e equilibrar as forças que moldam a opinião pública. O futuro da comunicação digital depende de um ecossistema mais transparente e colaborativo. Isso exige um compromisso conjunto entre plataformas, governos e sociedade civil para garantir que a informação continue sendo um instrumento de transformação e pertencimento, mesmo diante da crescente polarização digital.
Empresas que operam no Brasil e permitem a circulação de recursos públicos por suas plataformas devem se adequar às regras nacionais de transparência. Até o momento, não há informações oficiais da Meta sobre o motivo da mudança, nem posicionamento da Justiça ou do Governo brasileiro. Esta situação demanda uma resposta rápida e eficaz para garantir que a transparência digital não seja comprometida em um momento tão crucial para a democracia. A ação coletiva é necessária para assegurar que a informação permaneça acessível e que a privacidade não seja usada como desculpa para obscurecer dados que são do interesse público.
Marcelo Senise – Idealizador do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, Sócio Fundador da Comunica 360º, Sociólogo e Marqueteiro, atua há 36 anos na área política e eleitoral, especialista em comportamento humano, e em informação e contrainformação, precursor do sistema de análise em sistemas emergentes e Inteligência Artificial. Twitter: @SeniseBSB / Instagram: @marcelosenise





