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Como mentir com a verdade: a conexão precária entre escolas e internet no Brasil

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Por Sandro Gianelli

Dados oficiais mostram altos índices de conectividade escolar, mas a realidade revela falta de infraestrutura, equipamentos e velocidade adequada de internet

Você já parou para pensar como é possível mentir dizendo apenas a verdade? Parece um paradoxo, mas é exatamente isso que acontece quando o governo brasileiro apresenta os dados sobre conectividade nas escolas públicas. Quase 90% das escolas estão conectadas à internet — e isso é verdade. Mas essa informação, isolada, esconde mais do que revela. E é nesse abismo entre o que é dito e o que é vivido que mora a manipulação.

Segundo os dados oficiais, 89% das escolas públicas têm algum tipo de conexão com a internet. É o tipo de número que impressiona numa apresentação em evento internacional de educação ou tecnologia. Um dado que se encaixa perfeitamente em discursos de ministros ou representantes do país que desejam mostrar evolução e modernidade. Mas, quando se mergulha além da superfície, o número perde o brilho.

É verdade que 62% das escolas utilizam a internet no processo de ensino. Isso já é uma queda considerável, mas ainda assim, poderia sugerir algum avanço. O problema é que a sequência do mergulho revela a realidade incômoda: apenas 29% das escolas possuem computadores, notebooks ou tablets disponíveis para os estudantes acessarem a rede. Em outras palavras, sete em cada dez escolas não têm sequer estrutura mínima para que os alunos se beneficiem da tal conexão.

Pior ainda: nas escolas que têm equipamentos, há em média um dispositivo para cada 10 alunos. Isso significa dividir um computador entre uma dezena de estudantes, o que inviabiliza qualquer proposta pedagógica significativa com uso de tecnologia. E mesmo essa pequena parcela de escolas equipadas ainda enfrenta obstáculos. Só 11% das instituições maiores, por exemplo, conseguem oferecer velocidade de download igual ou superior a 1 megabit por aluno — valor considerado mínimo para atividades básicas, como assistir a um vídeo sem interrupções.

Na prática, o que deveria ser uma ferramenta de transformação educacional se transforma em frustração diária. Um professor que quiser mostrar um vídeo de 10 minutos em HD pode ter que esperar mais de uma hora para fazer o download, dada a lentidão da rede. A aula termina antes do conteúdo começar.

O problema não está nos dados, mas em como eles são usados. Governos — sejam eles atuais ou passados — manipulam a percepção pública ao esconder o essencial e exibir o que é conveniente. A verdade, quando apresentada pela metade, vira instrumento de ilusão. Quando se ignora o contexto, omite-se o que realmente importa: a qualidade da experiência educacional.

Não se trata de um erro técnico, mas de uma escolha política. Em vez de reconhecer as limitações e trabalhar com seriedade para superá-las, prefere-se inflar estatísticas para alimentar narrativas positivas. A conta, como sempre, recai sobre os alunos e professores, que continuam tentando ensinar e aprender com ferramentas precárias e promessas não cumpridas.

O Brasil não precisa de mais números maquiados. Precisa de transparência, compromisso com a educação e, acima de tudo, respeito por quem está na sala de aula. Porque, no fim das contas, conexão à internet não é só um cabo na parede. É o que se faz com ele. E, por enquanto, o que se tem feito é muito pouco.