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Meninas de 10 a 14 anos cuidam mais da casa e da família do que homens, diz estudo

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Da redação

Jordana Cristina de Jesus, 34, professora adjunta da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e doutora em Demografia pela UFMG, usou sua própria experiência de infância como inspiração para a pesquisa “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, recém-publicada. Filha do meio de cinco irmãos e criada por mãe solo, desde pequena assumiu tarefas domésticas e o cuidado com a irmã caçula, o que impactou seu tempo de estudos.

O estudo, realizado em parceria com Simone Wajnman e Cássio M. Turra, ambos da UFMG, revela que meninas de 10 a 14 anos no Brasil dedicam-se ao trabalho doméstico e de cuidados, chamado “trabalho invisível”, tanto quanto ou mais que homens de qualquer idade, respondendo por 2,4% de todo o trabalho de cuidado. O percentual máximo entre homens é atingido apenas entre 30 e 34 anos. Já as mulheres nessa faixa etária alcançam 9,1%, quase quatro vezes mais que os homens.

Segundo a pesquisa, mulheres realizam 79,7% de todo o cuidado não remunerado no Brasil, enquanto os homens, responsáveis por 20,3%, consomem mais cuidados do que produzem ao longo da vida. O destaque negativo recai sobre as mulheres negras, que, embora representem 24,1% da população, respondem por 44,2% desse tipo de trabalho. Entre elas, 34,5% chegam a transferir mais de 20 horas semanais em trabalho doméstico para outros membros da família.

A desigualdade de gênero persiste mesmo entre mulheres mais escolarizadas. No grupo com 12 ou mais anos de estudo, a diferença no tempo dedicado a tarefas domésticas em relação aos homens cai, mas ainda permanece em 14,7 horas semanais. “A escolaridade reduz a desigualdade, mas não elimina”, afirma Jordana. Ela ressalta que o pico da sobrecarga feminina ocorre no início dos 30 anos, coincidindo com o auge da carreira profissional e a formação da família.

O levantamento utilizou dados da PNAD de 2015 do IBGE, considerados os mais confiáveis para essa análise. Jordana, atualmente coordenadora-geral de gestão da informação da Secretaria Nacional da Política de Cuidado do Ministério do Desenvolvimento Social, destaca que o trabalho invisível, se remunerado, corresponderia a pelo menos 8,5% do PIB, segundo dados da FGV Ibre.