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COLUNA DO BLAU BLAU | O coelhinho faturou milhões e a crise tirou folga no feriado

Por Alex Blau Blau

Recordes de consumo na Páscoa reacendem debate sobre o real estado da economia brasileira

Se alguém ainda procurava sinais concretos de como anda a economia, talvez tenha encontrado nas prateleiras lotadas de chocolate. A Páscoa de 2026 surpreendeu não apenas pelo volume de vendas, mas pelo contraste com o discurso recorrente de crise permanente.

O caso mais emblemático veio da Cacau Show, que ultrapassou a marca de R$ 300 milhões em faturamento em um único dia. O número, por si só, já chama atenção. Mas o episódio ganhou contornos ainda mais curiosos quando o fundador da empresa, Alê Costa, decidiu comemorar de maneira inusitada: com sua banda de rock, cantando “Que país é esse”, clássico da Legião Urbana.

A cena diz muito. Durante anos, previsões pessimistas dominaram o debate público, com comparações frequentes a economias em colapso. A resposta vem com um tom irônico: Não, não é a Venezuela.

Mas a análise não pode parar no espetáculo. O desempenho da data foi amplo. Supermercados concentraram a maior parte das compras, respondendo por cerca de 62% do fluxo de consumidores. Itens tradicionais da Semana Santa tiveram crescimento moderado, favorecidos por uma leve queda em preços de produtos complementares como azeite, batata, frutas e muçarela.

Ao mesmo tempo, setores paralelos ganharam força. Padarias, confeitarias e pequenos comércios aproveitaram o momento para ampliar receitas. O artesanato, por exemplo, registrou um salto expressivo, com consumidores buscando alternativas mais baratas ou personalizadas frente ao encarecimento dos produtos industrializados. Cestas temáticas, ovos caseiros e lembranças criativas ganharam espaço.

O turismo também entrou na conta. Destinos tradicionais voltaram a receber visitantes, indicando que parte da população não apenas consumiu, mas também viajou, um sinal relevante em qualquer leitura econômica.

O que se desenha é um cenário menos linear do que sugerem discursos prontos. Há pressão de preços, sim. Há desigualdade e dificuldades, sem dúvida. Mas há também consumo, circulação de dinheiro e capacidade de adaptação, especialmente entre pequenos empreendedores.

A Páscoa, nesse contexto, funcionou como um retrato momentâneo: um país que oscila entre a cautela e o impulso de gastar, entre o aperto e a celebração. Um Brasil que, ao mesmo tempo em que reclama do preço do chocolate, não abre mão de levá-lo para casa.

No fim, o coelhinho pode até não resolver os dilemas estruturais da economia. Mas, quando aparece distribuindo centenas de milhões em vendas, ele obriga a rever certas certezas apressadas.