Da redação
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco identificaram que o protozoário unicelular Stentor coeruleus é capaz de aprender sem possuir cérebro. Segundo experimento publicado em abril de 2026 na revista Current Biology, o organismo desenvolve memória ao ser exposto repetidamente a choques mecânicos em colônias cultivadas em laboratório.
O grupo liderado por Wallace Marshall utilizou um agitador que submetia os Stentors a impactos periódicos durante quatro horas. Inicialmente, os protozoários retraíam a cauda rapidamente diante dos estímulos, mas, após sucessivas exposições, passaram a ignorar os choques. Esse processo, chamado habituação, representa a forma mais elementar de aprendizagem conhecida pela biologia.
Para investigar o mecanismo, foram aplicados inibidores da síntese proteica, como cicloxeximida e puromicina. Diferente do previsto, os Stentors habituaram-se ainda mais rápido, sugerindo que a formação de memória pode ocorrer sem necessidade de novas proteínas, apenas com a modificação de moléculas já presentes, em especial através de cálcio e da enzima CaMKII.
Os cientistas observaram que fluxos de cálcio ativavam rapidamente a CaMKII, que ajustava a sensibilidade dos receptores da membrana celular, remodelando respostas sem alterar o DNA. Interessante foi o fato de que células-filhas recebiam essa “memória” de habituação, evidenciando transmissão de experiências sem dependência genética.
Testes adicionais mostraram que o aumento do cálcio acelerava o aprendizado, enquanto inibir a CaMKII o retardava. O estudo, que conta com financiamento de órgãos como National Institutes of Health e National Science Foundation e tem Deepa H. Rajan, Ashley Albright, Ulises Diaz e Yina Hudnall entre os autores, amplia discussões sobre inteligência artificial e biologia sintética.
Especialistas como Gabriel Furtado, do Instituto Nacional de Tecnologia, e Helena Duarte, da Universidade de Lisboa, apontam para aplicações industriais e importância da cooperação científica internacional. Segundo Marshall, a habilidade de aprender é um atributo fundamental da vida, independente da complexidade dos sistemas nervosos.






