Por Alex Blau Blau
Conversas interceptadas revelam pagamentos recorrentes, suspeita de favorecimento político e atuação direta de empresários na elaboração de proposta apresentada no Senado
A Polícia Federal identificou indícios de pagamentos mensais feitos ao senador Ciro Nogueira no âmbito das investigações da Operação Compliance Zero, que apura um esquema bilionário de fraudes financeiras envolvendo empresas ligadas ao Banco Master. As informações constam em relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal e revelam diálogos comprometedores entre empresários investigados.
As apurações indicam que os repasses eram tratados internamente como uma espécie de “mesada”, com valores que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais. Em uma das conversas obtidas pelos investigadores, um dos envolvidos questiona se os pagamentos deveriam continuar no valor mais alto ou se poderiam retornar ao montante anterior.
A decisão mais recente do caso foi assinada pelo ministro André Mendonça, do STF, que autorizou medidas cautelares como monitoramento dos investigados e suspensão de empresas suspeitas de participação no esquema. A quinta fase da operação teve como alvos o senador e o empresário Felipe Vorcaro, apontado como operador financeiro ligado ao grupo investigado.
Segundo a Polícia Federal, as provas surgiram a partir da análise de mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Felipe Vorcaro. Os investigadores afirmam que os diálogos detalham uma estrutura financeira envolvendo empresas da família Vorcaro e uma companhia patrimonial associada ao senador.
Os documentos apontam que, em janeiro de 2025, já existiam dificuldades para manter os repasses devido ao aumento dos pagamentos direcionados ao chamado “parceiro”. Meses depois, em junho, uma nova troca de mensagens mencionava atraso de dois meses nos pagamentos relacionados a “Ciro”, além da discussão sobre a continuidade dos depósitos mensais de R$ 500 mil.
As investigações também levantam suspeitas de utilização do mandato parlamentar para beneficiar interesses privados. O foco da apuração envolve uma emenda apresentada pelo senador à PEC 65/2023, protocolada em agosto de 2024.
A proposta sugeria elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. De acordo com a PF, o texto teria sido elaborado diretamente por integrantes do Banco Master antes de ser encaminhado ao parlamentar.
Os investigadores afirmam que a minuta da emenda foi entregue pessoalmente na residência do senador e posteriormente apresentada no Congresso sem alterações significativas. Em mensagens analisadas pela PF, Daniel Vorcaro teria comemorado o fato de a proposta ter sido apresentada exatamente conforme solicitado.
Ainda segundo a investigação, interlocutores ligados ao banco avaliavam que a mudança poderia multiplicar os negócios da instituição de forma expressiva.
Além das suspeitas envolvendo pagamentos mensais, a Polícia Federal também apura possíveis vantagens obtidas por meio de operações empresariais consideradas fraudulentas. Uma das transações investigadas envolve a aquisição de 30% da Green Investimentos S.A. pela empresa CNLF Empreendimentos, administrada formalmente pelo irmão do senador, Raimundo Neto. O negócio teria sido fechado por R$ 1 milhão.
Até o momento, o senador não havia se pronunciado oficialmente sobre as acusações apresentadas nas investigações.







