Por Alex Blau Blau
Seria cômico se não fosse estranho
Em meio a hospitais lotados, famílias tentando sobreviver com o básico e um país ainda afundado em desigualdade, o deputado federal Hélio Lopes resolveu mostrar ao Brasil qual é sua grande prioridade parlamentar: pedir oficialmente a convocação de Neymar Jr. para a Copa do Mundo de 2026. Sim, é isso mesmo. Um ofício. Um documento oficial. Papel timbrado. Energia pública. Tempo público. Estrutura pública. Tudo isso para tentar escalar atacante.
E depois ainda perguntam por que o brasileiro desacredita da política.
O mais curioso é que o mesmo grupo político que vive discursando sobre “menos Estado” adora transformar mandato em fã-clube de celebridade. Enquanto mães esperam meses por consulta, trabalhadores enfrentam salários precários e a fome continua batendo na porta de milhões de brasileiros, o deputado decidiu incorporar um misto de empresário de carreira esportiva com comentarista de mesa-redonda.
E veja: ninguém está discutindo aqui se Neymar joga bola ou não. O problema é outro. O Congresso Nacional virou o quê? Comissão técnica da CBF? Gabinete parlamentar agora serve para emitir convocação sentimental? Falta só protocolarem requerimento pedindo lateral-direito e técnico reserva.
O texto do ofício chega a dizer que Neymar representa esperança para milhões de brasileiros. Talvez represente mesmo. Mas esperança maior seria ver parte dessa mesma dedicação direcionada para educação pública, combate ao racismo estrutural, geração de emprego ou defesa das periferias que tantos políticos só lembram em época de eleição.
Como ativista preto e alguém que acompanha de perto a realidade social brasileira, confesso: surpresa zero. Absolutamente nenhuma. O mesmo campo político que muitas vezes tenta esvaziar debates sobre desigualdade racial agora aparece mobilizado por um dos temas mais urgentes da República: a escalação de Neymar.
É quase poético. Trágico, mas poético.
E existe ainda um detalhe simbólico impossível de ignorar: parte desse bolsonarismo que vive performando patriotismo parece acreditar que o Brasil se resume a camisa da seleção, slogan pronto e idolatria de celebridade. Enquanto isso, o povo real segue espremido entre inflação, transporte precário, violência e abandono social.
O deputado afirma que não quer interferir tecnicamente na seleção. Ainda bem. Porque o Brasil já sofre demais quando político acha que pode interferir em tudo.
No fim, fica a pergunta que ecoa entre o deboche e a indignação: quantos problemas reais do povo brasileiro cabem dentro de um ofício para convocar Neymar?
E principalmente: pra que serve Hélio Negão no Congresso Nacional?







