Da redação
O debate sobre política externa ganhou relevância inédita na disputa presidencial de 2024 entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ambos buscam fortalecer a interlocução com os Estados Unidos, apostando que essa aproximação pode influenciar o resultado das eleições no Brasil, contrariando antigos consensos.
Historicamente, a política externa era vista como irrelevante nas urnas, mas, de acordo com analistas, temas internacionais estão cada vez mais presentes nos debates públicos e pesam sobre valores do eleitorado. O professor Feliciano de Sá Guimarães afirma que “temas internacionais se tornam importantes porque pesam na discussão de valores”, influenciando percepções progressistas ou conservadoras.
As pesquisas desenvolvidas pelo grupo “O Brasil, As Américas e O Mundo”, em parceria com o Cebrap, mostram que a partir de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, houve um ponto de inflexão na atenção à política internacional. O relacionamento dos pré-candidatos com o governo Trump nos EUA tornou-se questão central, como destacou Guimarães: “Quem conseguir lucrar com o relacionamento com Trump sai na frente”.
Em março de 2024, Flávio Bolsonaro se reuniu com Donald Trump na Casa Branca. Dias depois, os EUA classificaram as facções PCC e Comando Vermelho como terroristas, medida vista por especialistas como uma variável eleitoral significativa. O professor Lucas Leite avalia que esse tipo de ação pode provocar reação negativa no eleitorado brasileiro por questões de soberania nacional.
Lula e Flávio divergem em relação a temas como Venezuela e o conflito entre Israel e Hamas. Lula, que no passado manteve laços estreitos com o chavismo, foi crítico ao não reconhecer a reeleição de Maduro em 2024, mas evitou chamar a Venezuela de ditadura. Já Flávio reforçou laços com Israel e a direita internacional.
Segundo Guilherme Casarões, professor da Florida International University, a imagem de Lula diante do eleitorado de centro ainda sofre com sua relação anterior a governos autoritários. Flávio, por sua vez, enfrenta o desafio de mostrar experiência internacional e lidar com a imagem isolacionista deixada pelo mandato de seu pai.





