Por Alex Blau Blau
Quando o certo pede desculpas e o errado recebe aplausos
Dizem os antigos que o Saci adorava trocar as coisas de lugar durante a madrugada. Escondia objetos, confundia caminhos e fazia o povo acreditar que estava vendo uma coisa quando, na verdade, era outra.
Mas o Saci, perto dos tempos modernos, parece apenas um aprendiz.
Hoje não é mais o cachimbo que faz a cabeça torta. É a realidade que resolveu brincar de folclore.
O Brasil acordou esta semana assistindo a uma cena que parece saída de um conto onde a lógica foi sequestrada pela Cuca e levada para dentro da floresta. Uma mãe condenada por omissão diante das torturas sofridas pelo próprio filho recebe perdão judicial e deixa a prisão. Do outro lado da praça, um jornalista sem condições financeiras para quitar pouco mais de dois mil reais vê a possibilidade de prisão bater à sua porta.
O leitor pode esfregar os olhos.
Não, você não leu errado.
No país onde Henry Borel virou símbolo da dor de uma criança que não teve quem o defendesse, a discussão agora gira em torno do perdão concedido a uma figura que, para milhões de brasileiros, deveria carregar para sempre o peso moral daquela tragédia.
A Justiça falou. A lei decidiu. O processo seguiu seu curso.
Mas existe uma diferença entre aquilo que é legal e aquilo que a consciência popular considera justo.
E é exatamente nesse ponto que mora o desconforto.
A sensação que invade boa parte da população é simples. O mundo parece estar funcionando de cabeça para baixo.
O lobo virou vítima.
O caçador pede proteção.
E o cordeiro continua enterrado.
Enquanto isso, em outro capítulo desse grande teatro nacional, um jornalista condenado por difamação e incapaz de quitar uma obrigação financeira vê surgir uma ordem de prisão em regime aberto.
A pergunta ecoa nas ruas.
O que vale mais hoje?
O bolso ou a consciência?
A dívida financeira ou a dívida moral?
A resposta não é simples. Mas o sentimento popular parece cada vez mais evidente.
O poste trocou de lugar com o cachorro.
Vivemos uma época em que a sociedade assiste perplexa a uma inversão de valores que desafia até os velhos contadores de histórias.
Até a Marcha para Jesus, que deveria ser uma caminhada de fé para o Messias, muitas vezes parece transformada em desfile dos fariseus modernos. Não faltam câmeras. Não faltam discursos. Não faltam candidatos. Só às vezes parece faltar aquilo que deveria ser o personagem principal da festa.
É como se o Reino dos Céus tivesse ganhado camarote vip e coordenação de marketing.
A verdade é que estamos construindo uma sociedade onde os símbolos se confundem.
Onde o herói vira suspeito.
O suspeito vira celebridade.
A vítima vira estatística.
E a indignação tem prazo de validade.
Daqui a alguns dias surgirá um novo escândalo, uma nova polêmica e um novo assunto para ocupar as manchetes.
Mas Henry continuará morto.
Seu pai continuará convivendo com a ausência.
E milhões de brasileiros continuarão tentando entender em qual página da história alguém decidiu que a bússola moral deveria apontar para o lado contrário.
Talvez o problema não esteja apenas nas decisões dos tribunais.
Talvez esteja na sociedade que lentamente se acostumou a ver o absurdo passar pela porta da frente sem sequer pedir licença.
No fim das contas, o velho ditado permanece mais atual do que nunca.
Quando o poste troca de lugar com o cachorro, ninguém sabe mais quem deve iluminar o caminho e quem deveria apenas ficar ao pé dele.





