Da redação
A conselheira especial das Nações Unidas, Cristina Duarte, propôs no início deste mês, na sede da ONU, redefinir os recursos hídricos da África como “ativos estratégicos soberanos”, e não mais como “ajuda humanitária”. O tema marcou o encerramento da Série de Diálogos sobre África, promovendo nova abordagem para a gestão da água no continente.
Cristina Duarte afirmou que a discussão sobre água e saneamento deve ocorrer sob a ótica da soberania e do desenvolvimento autônomo, e não da beneficência internacional. Segundo ela, é preciso desafiar o modelo tradicional de desenvolvimento, com mudanças radicais na arquitetura política e financeira global, superando a “perspectiva assistencialista” vigente há décadas.
A subsecretária-geral argumentou que considerar o acesso à água apenas como serviço social ou projeto humanitário enfraquece a governança dos Estados africanos. “Água e saneamento na África não são serviços sociais nem parcelas humanitárias; são ativos estratégicos soberanos e devem ser governados como tal”, defendeu Duarte. Para ela, essa classificação impacta decisões institucionais e políticas.
Duarte ressaltou que cada produto agrícola exportado do continente representa água africana que sai do território, o que ela chamou de “extração da África”. Alerta para a dependência de investimentos externos e propõe a Gestão Estratégica de Ativos, envolvendo planejamento, construção, operação e proteção dos ecossistemas, com o objetivo de romper o ciclo de “construção, degradação e reconstrução”.
Ela também reforçou a necessidade de fortalecer instituições africanas e adotar novas posturas financeiras. Destacou que fundos climáticos e bancos multilaterais de desenvolvimento devem priorizar investimentos de grande escala, como sistemas de irrigação e restauração de bacias, em vez de microprojetos. Defende que “governos que pagam pelos seus próprios sistemas de água governam melhor”.
Dados apresentados pela subsecretária-geral indicam que a África reúne 99% da água doce renovável global e cerca de 65% das terras aráveis não cultivadas do planeta. Cristina Duarte enfatizou, ao final do fórum, que cabe ao continente construir marcos legais, instituições e vontade política para tornar a soberania sobre a água irreversível.




