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Cara de Pau

Por Alex Blau Blau

Entre fotografias, refrões e velhas desculpas, a política brasileira parece tocar sempre a mesma canção

Há músicas que atravessam gerações porque falam da alma humana. Outras parecem ter sido compostas especialmente para certos capítulos da política nacional. Basta mudar o personagem, porque o roteiro continua o mesmo.

Uma fotografia aparece.

Um vídeo ressurge.

Uma conversa vem à tona.

E, como num velho disco riscado, começa o desfile das justificativas.

“Não sabia.”

“Não conheço.”

“Não lembro.”

A imagem divulgada recentemente mostrando o senador Flávio Bolsonaro ao lado de um homem que mais tarde seria investigado na Operação Compliance Zero reacendeu esse velho debate. O parlamentar afirmou que não conhece todas as pessoas com quem tira fotografias durante compromissos públicos. A explicação foi dada e está posta. Cabe ao cidadão avaliá-la.

Mas a reflexão vai muito além de um único personagem.

Porque, no palco da política brasileira, a orquestra toca para todos os lados.

Aí entra “Cara de Pau”, de Rick e Renner. Não como acusação, mas como uma metáfora que parece visitar o noticiário sempre que surgem versões que disputam espaço com os fatos.

Logo depois, ecoa “Mentiras”, eternizada por Adriana Calcanhotto. Não porque toda versão seja necessariamente falsa, mas porque a verdade, na política, costuma chegar atrasada, enquanto as explicações já ocuparam todos os microfones.

E quando pensamos que o espetáculo terminou, Cazuza sobe ao palco com “Brasil”. Quase perguntando onde foi parar a indignação de um povo que já se acostumou a assistir às mesmas cenas, apenas com novos protagonistas.

O curioso é que o problema nunca foi apenas a fotografia.

A fotografia apenas congela um instante.

O que pesa é tudo aquilo que vem depois dela.

As explicações.

As coincidências.

Os esquecimentos seletivos.

As conveniências.

Na política brasileira, a memória parece sofrer de uma doença curiosa. Ela desaparece exatamente quando aparecem malas de dinheiro, envelopes misteriosos, encontros inconvenientes, mensagens comprometedoras ou fotografias desconfortáveis. É uma epidemia democrática que não distingue partidos, ideologias nem sobrenomes.

Talvez Belchior já tivesse previsto isso em “Como Nossos Pais”. Os rostos mudam. Os discursos mudam. As promessas mudam. Mas certos comportamentos insistem em atravessar décadas como uma herança mal resolvida.

E então vem a pergunta inevitável.

Quem engana quem?

O político que oferece a desculpa?

Ou o eleitor que, de tanto ouvir o mesmo refrão, acaba decorando a letra antes mesmo de a música começar?

Há ainda um detalhe curioso nessa grande ópera nacional.

A imagem pública costuma vestir terno impecável, frequentar cerimônias solenes, posar para fotografias e discursar sobre valores elevados. Mas a realidade, vez ou outra, resolve trocar a iluminação do palco e revelar cenas que alimentam dúvidas, cobranças e questionamentos. Não cabe ao jornalismo condenar pela aparência nem absolver pela palavra. Cabe mostrar os fatos e permitir que eles conversem entre si.

Porque fatos têm uma característica que discursos jamais conseguirão copiar.

Eles não desafinam.

No fim, Brasília continua sendo uma cidade onde a política parece escrever suas próprias partituras. O sertanejo pergunta “Cara de Pau”. Adriana Calcanhotto responde com “Mentiras”. Belchior recorda “Como Nossos Pais”. Cazuza grita “Brasil”. E Renato Russo encerra o espetáculo perguntando “Que País É Este?”.

Talvez a resposta esteja justamente no silêncio que invade o palco quando a música acaba. Ou talvez não. Porque, por aqui, quando as luzes se apagam e a plateia pensa que finalmente chegou o fim do espetáculo, alguém sempre volta ao microfone para pedir mais um bis. E, curiosamente, é quase sempre a mesma canção.