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A democracia pode estar sendo manipulada antes mesmo de o eleitor chegar à urna

O capital algorítmico herdado está revelando uma nova desigualdade política: enquanto alguns disputam a atenção do eleitor, outros já chegam ao debate com o poder de influenciar o que ele vê, acredita e compartilha.

POR MARCELO SENISE

Imagine disputar uma eleição contra um adversário que, antes mesmo de começar a campanha, já possui milhares de pessoas prontas para distribuir suas mensagens, multiplicar suas narrativas e transformar qualquer manifestação em uma aparente demonstração de força popular.

Chamo assim o patrimônio de influência acumulado por comunidades digitais que, muitas vezes, nasceram longe da política. Fandoms de artistas, influenciadores e celebridades desenvolveram, durante anos, vínculos emocionais, redes de relacionamento e hábitos de engajamento. Quando parte dessas comunidades abraça uma causa política, não começa do zero. Entra na disputa com uma estrutura de mobilização já instalada.

Não significa que os algoritmos concedam privilégios permanentes a essas comunidades. A hipótese é mais complexa: relações sociais, comportamentos recorrentes e redes de distribuição previamente construídas podem favorecer a circulação de mensagens políticas.

A audiência pode ser conquistada fora da política e convertida em poder dentro dela.

Pesquisas internacionais publicadas na revista científica PNAS demonstraram que sistemas de recomendação podem produzir diferenças na amplificação de conteúdos políticos. Isso não significa que toda popularidade seja artificial, mas confirma que a arquitetura das plataformas interfere na visibilidade das mensagens.

Quando comunidades mobilizadas, mecanismos algorítmicos e sistemas automatizados passam a atuar de forma coordenada e opaca, torna-se possível ampliar artificialmente a percepção de apoio popular.

Não é preciso convencer milhões de pessoas. Pode bastar fazê-las acreditar que milhões já foram convencidos.

Em nossos estudos no IRIA, realizados com apoio tecnológico da plataforma integrada Sentinela Eleitoral/Polijetro, investigamos mais de 33 mil contas em ecossistemas políticos. Aproximadamente 24% apresentaram indícios de provável automação. O dado não representa todas as redes sociais brasileiras, mas acende um sinal de alerta sobre a autenticidade de parte da movimentação digital observada.

Quando uma minoria consegue parecer maioria, a percepção coletiva pode ser distorcida antes mesmo de qualquer argumento ser apresentado.

Isso não significa que curtidas se transformem automaticamente em votos. A influência eleitoral exige comprovação empírica. Tampouco significa criminalizar fandoms ou comunidades organizadas, cuja participação legítima é parte essencial da democracia.

O desafio está em distinguir mobilização espontânea de coordenação enganosa, popularidade verdadeira de amplificação artificial e influência legítima de manipulação encoberta.

A Europa já avançou na discussão dos riscos sistêmicos das plataformas digitais. O Brasil precisa compreender que proteger a democracia exige olhar além do conteúdo publicado. É necessário investigar também os mecanismos que determinam quem aparece, quem desaparece e quem parece representar a vontade coletiva.

Depois de quase quatro décadas estudando comportamento humano e trabalhando com comunicação política, percebo que estamos atravessando uma mudança histórica. Durante muito tempo, a pergunta central era como convencer o eleitor. Agora, precisamos perguntar quem está organizando o ambiente no qual ele acredita estar formando livremente sua opinião.

De que adianta proteger a urna contra fraudes se permitirmos que o ambiente onde o eleitor constrói suas escolhas seja artificialmente manipulado?

A ameaça mais sofisticada à democracia talvez não seja impedir alguém de votar. É fazer com que milhões de pessoas acreditem estar escolhendo livremente, sem perceber que a realidade apresentada a elas pode ter sido cuidadosamente manipulada.

SOBRE O AUTOR

Marcelo Senise é sociólogo, estrategista político e presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial. Com 38 anos de experiência em comunicação política, é especialista em comportamento humano e IA aplicada à política. Autor de A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política e da trilogia Blindagem Essencial, desenvolve pesquisas sobre neurobots, manipulação algorítmica e integridade cognitiva.