Por Marcelo Senise
Nas eleições de 2026, a guerrilha política deixará de operar apenas no submundo da propaganda clandestina para se instalar, com sofisticação inédita, no coração dos algoritmos, das plataformas e da percepção pública.
O ataque já não virá apenas em forma de boato, dossiê ou insinuação. Virá com aparência de verdade, com linguagem plausível, com estética de autenticidade e com velocidade industrial. A nova guerrilha eleitoral será travada no campo da manipulação sensível: da dúvida, do medo, da desmoralização e da desfiguração simbólica do adversário.
O problema é que o sistema institucional ainda reage no tempo do processo, enquanto a tecnologia age no tempo do impulso. A legislação avança, o TSE busca responder, a regulação tenta cercar excessos. Mas há um descompasso estrutural entre a norma e a máquina. A Justiça atua por provocação; a inteligência artificial opera por inundação. Quando a resposta chega, o dano emocional, reputacional e político já encontrou destino no imaginário do eleitor.
É nesse ambiente que surge o maior paradoxo da comunicação política contemporânea. Nunca houve tantas ferramentas para polir um candidato, ajustar sua voz, suavizar sua imagem, roteirizar suas falas e fabricar sua presença. E, no entanto, nunca foi tão perigoso parecer perfeito. A política entrou no território do Vale da Estranheza: quanto mais artificialmente impecável parece uma liderança, mais ela desperta desconfiança. O eleitor talvez não saiba explicar tecnicamente o que está vendo, mas percebe quando há algo sem vida, sem calor, sem verdade.
Campanhas que tentam “sanear” em excesso seus candidatos produzem exatamente o efeito oposto ao desejado: desumanizam. Transformam biografias em avatares. Substituem presença por performance. E, ao fazer isso, entregam de bandeja à guerrilha digital a oportunidade perfeita para ampliar a rejeição. Porque, em um cenário saturado por conteúdos sintéticos, a frieza não comunica competência; comunica distância. E distância, em política, costuma ser o primeiro passo para a erosão da confiança.
Por isso, a blindagem real de uma candidatura não está apenas na defesa jurídica, na inteligência de monitoramento ou na prontidão da resposta. Tudo isso será indispensável. Mas não será suficiente. A proteção mais profunda estará naquilo que chamo de Estética da Verdade: a capacidade de sustentar uma comunicação em que a imperfeição não seja um erro a esconder, mas uma marca de legitimidade. Em um mundo onde tudo pode ser fabricado, o humano imperfeito passa a ser a última prova de autenticidade.
Esse é o ponto central. A política de 2026 exigirá menos encenação e mais densidade humana. Menos personagem e mais pessoa. Menos verniz e mais convicção. O eleitor poderá até ser impactado pela tecnologia, mas continuará decidindo com base naquilo que reconhece como verdadeiro. O luxo da imperfeição, nesse contexto, deixa de ser fragilidade e passa a ser autoridade. Quem compreendeu isso saiu da lógica da propaganda e entrou no terreno da confiança.
A guerrilha eleitoral do nosso tempo não quer apenas derrotar adversários. Ela quer desmontar referências, corroer reputações e dissolver vínculos entre liderança e sociedade. Seu método não é apenas mentir, mas confundir; não é apenas acusar, mas embaralhar; não é apenas atacar, mas tornar tudo suspeito. E é exatamente por isso que a resposta mais poderosa não será tecnológica na essência, embora precise da tecnologia como suporte. Ela será política, simbólica e profundamente humana.
Esses conceitos estão estampados na minha nova obra, A Complexa Arte da Blindagem, que será lançada em julho, e partem de uma convicção simples, mas decisiva: na era da manipulação algorítmica, vence quem preserva a humanidade como ativo estratégico. Em 2026, mais do que nunca, campanhas não precisarão apenas de marketing. Precisarão de densidade moral, coerência narrativa e coragem para sustentar a própria verdade sem terceirizar a alma para as máquinas.
Marcelo Senise é estrategista político e autor de A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política. Preside o IRIA (Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial).






