Por Sandro Gianelli
Na quinta-feira (24), no meio da tarde, sete ministros do Tribunal Superior Eleitoral decidiram, por 5 votos a 2, que José Roberto Arruda não pode ser governador do Distrito Federal. Ao mesmo tempo, em algum galpão do TRE-DF, urnas já lacradas continuavam com o nome dele lá dentro. É um candidato que não pode ser votado, guardado numa máquina que ninguém pode abrir.
Brasília tem dessas coisas.
Celina Leão já chegava à reta final na frente, liderando as pesquisas no primeiro e no segundo turno. A decisão do TSE não mudou quem lidera. Mudou o tamanho da vitória possível. Agora, Celina pode ganhar no primeiro turno.
Vou admitir uma coisa que qualquer operador de campanha no DF sabe e poucos dizem em voz alta. A eleição para o Palácio do Buriti nunca foi uma disputa entre projetos. Há mais de três décadas, é uma disputa por herança. Quem fica com o eleitor de Joaquim Roriz fica com o governo.
Chame de herança Roriz. É o voto da Ceilândia, de Samambaia, do Recanto das Emas, de Planaltina. É o voto de quem ganhou o lote, viu o asfalto chegar na porta e nunca esqueceu quem mandou a máquina. Esse eleitor não lê programa de governo. Ele lembra.
Faça a conta e você entende por que esta semana mudou tudo. Arruda e Celina disputavam o mesmo espólio, o mesmo eleitor que, no passado, esteve nos grupos liderados por Roriz. Eram dois herdeiros brigando pelo mesmo testamento. A Justiça Eleitoral acaba de riscar um deles.
O eleitor de Arruda não vai migrar para a oposição. Não é o perfil, nunca foi. Ele vai procurar quem fala a mesma língua. E só sobrou uma pessoa falando essa língua.
Eu cubro política no DF há vinte anos, da redação e dos bastidores de campanha. Vi governador prometer metrô que não saiu do papel. Vi candidato inaugurar pedra fundamental de obra que nunca teve segunda pedra. Vi gente que chegou ao Buriti sem saber onde fica o Sol Nascente.
Celina não é esse caso. Foi secretária no governo Roriz. Foi deputada distrital por dois mandatos. Presidiu a Câmara Legislativa. Foi deputada federal. Foi vice-governadora. Desde abril, quando Ibaneis Rocha renunciou, é governadora. Nenhum dos adversários que sobraram na disputa chega perto desse currículo. Isso é biografia, é experiência.
E tem o estilo, que é o que o eleitor rorizista reconhece de longe. Governo focado nas pessoas e na obra que muda a vida da cidade: o viaduto, a escola, a rua que deixa de alagar.
Sem, com isso, abrir mão de pensar o DF daqui a trinta anos, com as grandes obras que atravessam governos. Era exatamente essa a fórmula de Roriz: a obra pequena que o morador vê da janela e a obra grande que o filho dele vai usar. Celina aprendeu na fonte.
Só que o DF de 2026 não é o de 1990. Roriz deu dignidade a quem estava na rua: tirou famílias do barraco e entregou lote, entregou casa. Aquela era a urgência do seu tempo.
A urgência de hoje é outra, e todo mundo que já passou uma madrugada numa fila de UPA sabe qual é. É a saúde. É cuidar de gente.
E aqui entra algo que nenhum adversário consegue copiar. Celina é mulher, filha, esposa, mãe e cristã. Pode ser a primeira mulher eleita pelo voto para governar o Distrito Federal.
Quem cuida de uma casa sabe onde dói. Quem já esperou atendimento com um filho no colo não precisa de assessor para explicar o que é uma fila de hospital.
Roriz cuidava das pessoas dando um teto. Celina tem tudo para cuidar dando saúde, creche e acolhimento. Muda a ferramenta, mas o foco continua sendo as pessoas. É o olhar feminino chegando ao Buriti.
E não é promessa de palanque. Desde que assumiu, Celina fez da saúde a sua agenda.
Em abril, mandou à Câmara Legislativa a Tabela SUS-DF, para abrir credenciamento a hospitais e clínicas e tirar a fila de cirurgias da burocracia. Em junho, os contratos com a rede privada passaram de 20 mil cirurgias eletivas, e ela foi pessoalmente aos hospitais, num sábado de manhã, ver os primeiros pacientes serem operados.
No mesmo mês, tirou do papel o inicio da obra do Hospital Regional de São Sebastião, um pedido antigo da cidade: 100 leitos, 30 deles de pediatria, com R$ 165 milhões de investimento. Reabriu o pronto-socorro de Planaltina reformado e com tomógrafo novo.
Lançou o edital de R$ 36,9 milhões do Bloco de Doenças Raras do Hospital de Apoio, para cerca de 150 mil pessoas no DF, e se emocionou ao falar de casos na própria família.
Em julho, inaugurou o Caps III do Gama e a UBS da Ponte Alta, e criou a Rede de Apoio às Mães Atípicas. Em setembro, anunciou para Ceilândia um hospital de mais de 600 leitos.
Contratou médico. Abriu leito. Encurtou fila. Roriz entregava lote com a escritura na mão. Celina entrega leito, consulta e cirurgia.
Agora a parte que os marqueteiros da oposição estão calculando em silêncio desde quinta-feira. No primeiro turno, quando as urnas fecham, só contam os votos válidos, sem brancos e nulos. Quem passa de 50% leva.
Não é só leitura de bastidor. Os números saíram neste domingo (27).
Pesquisa do Instituto Gazeta de Pesquisa (Igape), encomendada pela TV Atual, afiliada da Record News, simulou o cenário sem Arruda. Considerando apenas os votos válidos, o resultado é este:
- Celina Leão (PP): 56,1%
- Leandro Grass (PT): 22,1%
- Paula Belmonte (PSDB): 7,5%
- Ricardo Cappelli (PSB): 5,5%
- Kiko Caputo (Novo): 4,1%
- Elisson (Agir): 1,5%
- Professora Samara (UP): 1,1%
Somados, todos os adversários ficam em 41,8%. Celina, sozinha, tem 56,1%. Mais de 14 pontos acima da soma de todo mundo.
Pela regra, isso encerra a eleição em 4 de outubro.
A oposição passou o ano inteiro torcendo para Arruda e Celina dividirem o eleitorado e empurrarem a disputa para o segundo turno. O plano dependia de os dois estarem na urna.
Sobrou uma.
Em Brasília, Roriz nunca perdeu uma eleição que disputou. A pergunta que fica para 4 de outubro é simples: se a herança continua a mesma, por que o resultado seria diferente?
A pesquisa Igape/TV Atual ouviu 2 mil eleitores entre 22 e 26 de setembro de 2026. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Está registrada no TSE sob o número DF-00171/2026.



