Da redação
O relatório global “Limiting Overshoot”, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, aponta que o limite de 1,5°C de aquecimento previsto pelo Acordo de Paris será superado nos próximos anos. No cenário mais otimista, estima-se um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, segundo o documento.
De acordo com a professora Joana Portugal, única brasileira no comitê científico do relatório, “o 1,8°C separa uma ultrapassagem e declínio ainda reversível de um aquecimento que se torna permanente”. Ela explica que o retorno a 1,5°C ainda no século se tornará inviável acima desse patamar, pois a remoção necessária de carbono demandaria centenas de gigatoneladas, em um contexto de redução da capacidade natural de captura em um clima mais quente.
Joana Portugal, que também é professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora principal do Capítulo 3 do Grupo de Trabalho III do Sétimo Ciclo de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, afirma que a trajetória de overshoot não se trata de um evento pontual, mas de uma sequência de excedência, pico, declínio e estabilização ao longo de décadas ou até séculos. A estabilização exige emissões líquidas zero de CO₂; revertê-la, emissões líquidas negativas sustentadas, além de cortes profundos no metano.
O relatório enfatiza que a meta de 1,5°C permanece e não pode ser flexibilizada, inclusive por determinação da Corte Internacional de Justiça e resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas. Destaca ainda que a remoção de carbono não substitui a redução radical de emissões e que as populações mais vulneráveis, em especial do Sul Global, serão as mais impactadas pelos custos e efeitos da ultrapassagem.




