Por Sandro Gianelli
Eu já fabriquei candidato do zero.
É um processo conhecido no meu ofício: pega um nome com dinheiro ou com sobrenome, contrata pesquisa pra descobrir qual pauta rende, monta persona, ensaia bordão, tira foto numa feira comendo pastel pra parecer “gente do povo”. Em oito meses o sujeito está numa live falando como se governasse a vida inteira. Funciona, às vezes até elege. Mas tem um defeito de fabricação que não se resolve com verba: esse tipo de candidato nunca foi testado antes de pedir o voto.
Por isso, quando cheguei em Ceilândia neste sábado (18), eu não fui ver se a multidão com milhares de pessoas era grande. Fui ver se ela tinha motivo pra existir.
Vou te contar o que eu procuro primeiro quando avalio se um lançamento de pré-candidatura é sólido ou é fachada: eu não olho o discurso do dia, olho o currículo dos últimos vinte anos. Discurso se escreve numa tarde. Currículo, não.
O de Celina Leão eu não precisei pesquisar, é público, é checável, e ninguém contesta: secretária de Estado, duas vezes deputada distrital, presidente da Câmara Legislativa, deputada federal, vice-governadora e agora governadora, na cadeira mais alta do Buriti, buscando reeleição como favorita nas pesquisas. Não é uma sequência de cargos qualquer. É uma sequência em que cada posição foi um teste eleitoral ou institucional que ela passou antes de subir pra próxima.
Chamo de “candidatura de laboratório” aquela que nasce pronta, sem passar por nenhuma urna antes da que importa. Ela precisa de estúdio, de consultor, de pesquisa quantitativa cara, porque não tem histórico pra se apoiar. Se você tirar a campanha publicitária de um candidato de laboratório, sobra pouco.
Tira a campanha publicitária de Celina Leão e sobra isto: um mandato de secretária que alguém avaliou antes de indicar. Duas eleições pra deputada distrital que o eleitor decidiu. Uma eleição pra deputada federal, que exige voto em escala no Distrito Federal inteiro. Uma vitória pra vice-governadora, numa chapa que precisa de equilíbrio de forças pra vencer. E agora o comando do próprio governo, testado no dia a dia, não em pesquisa de intenção, em entrega de obra, em resposta que precisa sair antes que a crítica cresça.
Aqui está o pulo do gato que pouca gente de fora do jogo enxerga: evento de pré-candidatura de quem tem trajetória real não serve pra construir imagem, serve pra confirmar uma imagem que já estava construída antes de o microfone ligar. Foi isso que vi em Ceilândia.
Celina levou Gustavo Rocha, ex-chefe da Casa Civil, pra vice, alguém que ela mesma apresentou como o nome que dá estabilidade ao governo, não um puxadinho de última hora pra equilibrar chapa. Levou Bia Kicis e Damares Alves ao palco, duas lideranças que não emprestam nome a quem não tem força de urna comprovada. Fechou aliança com 12 partidos, com convenção marcada pra 2 de agosto.
E, no meio do discurso, fez o que candidato de laboratório evita fazer: admitiu problema. “Nós temos problema, sim, mas problema a gente não esconde, a gente enfrenta”, sobre a saúde pública do DF, no palco do próprio lançamento. Só disse isso porque tinha o que mostrar em seguida: R$ 100 milhões investidos nos hospitais, 30 pontos de reforma em andamento no Hospital Regional de Ceilândia, oito UPAs e três hospitais em construção, mais de 300 ordens de serviço geradas pelo programa GDF na Sua Porta em pouco mais de três meses de gestão definitiva.
Eu já vi candidatura de laboratório encher praça uma vez, na estreia, com ônibus fretado e bandeira distribuída na entrada. Nunca vi uma dessas voltar a encher a mesma praça, sem cachê, num sábado de manhã.
Tem um teste que só quem está no comando agora pode fazer: pedir reeleição no meio do próprio governo, com o povo na rua enquanto a gestão está em curso, não numa promessa, numa obra sendo entregue neste exato momento. Celina Leão passou por esse teste em Ceilândia. A pergunta que fica pra outubro é simples: quem mais vai repetir a mesma cena, com a mesma multidão, no mesmo formato?




