Início Coluna do Gianelli Coluna do Blau Blau | A palmatória tem lado?

Coluna do Blau Blau | A palmatória tem lado?

Corrupção não pertence à esquerda, à direita, ao centro ou à periferia do pensamento político. Pertence ao terreno da desonestidade. Insistir em transformá la em patrimônio ideológico é um dos maiores desserviços prestados ao debate público.

Há quem vista a fantasia do velho Felpudinho, aquele personagem que fazia de conta que era surdo quando alguém apontava os erros dos seus. Mas basta surgir uma suspeita envolvendo o adversário para o ouvido ganhar a sensibilidade de um maestro. Não há alfinete escondido em um celeiro de feno que escape aos seus olhos atentos.

Depois aparece Pedro Malas Artes, capaz de transformar uma simples sopa de pedra em um banquete de justificativas. Onde antes havia indignação, agora surgem explicações, relativizações e discursos sobre contexto, perseguição ou conveniência. A criatividade para defender aliados parece não conhecer limites.

É curioso observar que até críticos severos da extrema direita, que cobraram com vigor cada suspeita, cada investigação e cada deslize de seus adversários, agora caminham em silêncio quando as atenções recaem sobre figuras influentes do próprio campo político. O mesmo rigor exigido da oposição parece desaparecer quando o desconforto muda de endereço.

E então entra em cena Pinote, o Fracote, desafiando Janjão, o Fortão. Bastou o confronto para que o gigante descobrisse que sua maior fraqueza não era física, mas intelectual. Defender princípios apenas quando eles favorecem o próprio grupo nunca foi demonstração de coragem. É apenas conveniência travestida de convicção.

Em meio a toda essa celeuma, nota se o chamado pai de todos afastando a vara da disciplina. O clube do bolinha continua repleto de meninos travessos, mas o corretivo parece ter sido guardado no armário. A pedagogia da responsabilidade, tão invocada quando os erros pertenciam ao governo anterior, hoje parece ter entrado em recesso.

E como não lembrar do cinema nacional? Ó Pai, Ó… Tu viu? A pimenta começou a arder nos olhos. Quando as investigações alcançam nomes próximos ao poder, o discurso muda de temperatura. O que antes era tratado como intolerável passa a ser recebido com cautela, silêncio ou espera conveniente.

O caso envolvendo Daniel Vorcaro e as investigações que alcançam personagens da esfera política, entre eles o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, ao menos no campo das apurações já conhecidas, suscita uma pergunta inevitável. Onde estão os mesmos discursos inflamados exigindo explicações, afastamentos políticos ou, ao menos, um simbólico puxão de orelha? Investigações devem seguir seu curso com respeito ao devido processo legal, mas a coerência não pode mudar de lado conforme a fotografia do investigado.

Quem exige responsabilidade dos adversários precisa demonstrar a mesma disposição quando os fatos alcançam aliados. Caso contrário, deixa de defender princípios para defender apenas conveniências.

Para que ninguém confunda as coisas, este cronista faz questão de repetir o que já escreveu antes. Desde 31 de outubro de 2022, deixei de ser apoiador para me tornar fiscal. Fiscal de governos, de autoridades e de discursos. Porque a democracia não precisa de torcidas organizadas. Precisa de cidadãos capazes de cobrar coerência.

E se a punição for necessária, dispensemos a brincadeira de adoleta. Tragam a velha palmatória. Escolha a destra ou a sinistra. Se eu errar, que me punam também. Afinal, a régua da moral pública só merece respeito quando mede todos pela mesma medida.