Início Distrito Federal Corporativismo médico agrava crise no sistema de saúde do DF durante greve

Corporativismo médico agrava crise no sistema de saúde do DF durante greve

Da redação do Conectado ao Poder

Falta de fiscalização sobre presença dos médicos nos plantões é fruto da resistência da categoria a mecanismos de controle

A greve dos médicos da rede pública de saúde do Distrito Federal, que já dura várias semanas, não apenas expôs falhas no atendimento à população, como também evidenciou o corporativismo dentro da categoria, que resiste a qualquer forma de controle efetivo sobre a presença nos plantões. A paralisação, que intensificou o caos nos hospitais, trouxe à tona um problema recorrente: a falta de fiscalização eficiente, não por falhas do governo, mas por pressão dos próprios profissionais, que há anos resistem à implementação de um sistema rigoroso de controle de assiduidade.

Embora a Secretaria de Saúde tenha tentado em várias ocasiões implantar mecanismos que assegurem a presença dos médicos nos hospitais, a resistência da categoria impediu avanços significativos. A recusa dos profissionais em aceitar monitoramentos mais rígidos, como o ponto eletrônico, por exemplo, é apontada como o principal obstáculo. Mesmo em tempos normais, a ausência de médicos nos plantões é uma queixa frequente da população, e com a greve, essa situação se agravou ainda mais.

A categoria, que já conta com salários que podem chegar a R$ 80 mil, historicamente rejeita medidas que busquem fiscalizar o cumprimento da jornada de trabalho. Esse comportamento é atribuído ao corporativismo que domina o setor, onde parte dos profissionais prefere manter privilégios e flexibilidade, atuando também em consultórios particulares ou hospitais privados, muitas vezes em detrimento das obrigações com o serviço público. Durante a greve, essa prática ficou ainda mais evidente, e o controle sobre quem está realmente nos hospitais ficou praticamente inviável.

Os efeitos desse corporativismo são visíveis nas unidades de saúde. No Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), por exemplo, o cenário é de superlotação e falta de médicos, enquanto crianças e idosos sofrem sem atendimento adequado. A greve, ao invés de expor apenas a falta de negociação entre governo e categoria, escancarou como a resistência a um controle rigoroso sobre a presença médica contribui diretamente para o colapso do sistema público de saúde. O resultado é uma população desamparada, com pacientes aguardando horas ou até dias por um atendimento que, muitas vezes, não chega.

Enquanto o Código de Ética Médica garante o direito à greve, ele também exige que os profissionais mantenham o atendimento de urgência. Na prática, porém, a ausência de um sistema confiável de controle – boicotado pela própria categoria – faz com que a fiscalização sobre quem está ou não cumprindo essa obrigação seja quase impossível. Essa resistência ao monitoramento é um reflexo do corporativismo que prioriza os interesses internos da classe médica em detrimento da transparência e do compromisso com o serviço público.

O governo do DF tem encontrado dificuldades em negociar com a categoria, especialmente em meio a um contexto de orçamento apertado e demandas salariais altas. No entanto, a falta de adesão da classe médica a medidas de controle tem tornado a situação ainda mais desafiadora. Mesmo em tentativas anteriores de modernizar a gestão, com propostas de implementar sistemas que monitorassem a carga horária e a presença, as barreiras corporativas impediram qualquer avanço real. A resistência da classe médica a essas iniciativas impede que o governo tenha dados concretos para tomar decisões estratégicas e garantir um atendimento básico contínuo à população, mesmo durante períodos de greve.

O reflexo mais cruel dessa situação é vivido pela população, que acaba refém de um sistema de saúde falho, agravado pela falta de comprometimento de parte da categoria. O que deveria ser um movimento legítimo de reivindicação por melhores condições de trabalho e reajustes salariais se transforma, na prática, em uma crise causada também pela resistência de médicos a aceitarem maior transparência e fiscalização.

No centro da crise, a pergunta que fica é: até quando o corporativismo dentro da classe médica vai prevalecer sobre o dever de servir à população? Enquanto a pressão da categoria bloqueia avanços no controle de presença e dificulta a implementação de soluções, a saúde pública do DF se deteriora, e os cidadãos, os mais prejudicados por essa disputa, continuam desassistidos.