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Do algoritmo ao abraço: a mobilização política nas eleições de 2026

Do algoritmo ao abraço: a mobilização política nas eleições de 2026

Por Daniel Machado

As eleições presidenciais de 2026 recolocaram no centro do debate uma pergunta que venho fazendo há algum tempo: onde está, de fato, a conexão política? Nas ruas ou nas redes?

Em meu artigo “Mobilizar para aproximar: o que nos mostra o case Jesus de Nazaré”, publicado no livro do CAMP – Volume 2 – Eleições, defendi que nenhuma tecnologia substitui integralmente a experiência do encontro. A comunicação política não se resume à transmissão de mensagens. Ela exige presença, escuta, confiança e capacidade de mobilização.

O segundo turno presidencial de 2026 oferece um novo campo para investigar essa reflexão.

Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, Lula ampliou sua votação em mais de dez milhões de votos e conquistou a reeleição. No mesmo período, o comparecimento eleitoral cresceu em aproximadamente três milhões de pessoas.

Esses números não permitem atribuir a mudança a uma única estratégia, mas convidam a examinar o papel das redes de mobilização, dos encontros presenciais e das iniciativas descentralizadas que ganharam visibilidade durante a campanha.

Vivemos um tempo em que os algoritmos organizam parte importante da nossa experiência informacional. As plataformas selecionam conteúdos, influenciam a visibilidade das mensagens e podem favorecer dinâmicas de polarização. Entretanto, o volume de interações não revela, necessariamente, a profundidade dos vínculos políticos.

É possível produzir milhões de visualizações sem construir uma comunidade. É possível conquistar milhares de curtidas sem despertar compromisso. E é possível reunir poucas pessoas numa praça e iniciar relações que se multiplicam para além daquele encontro.

Essa distinção nos leva novamente ao case Jesus de Nazaré. Sua comunicação, conforme os relatos que atravessaram os séculos, não se limitava a alcançar ouvintes. Ela buscava transformar ouvintes em seguidores e seguidores em multiplicadores de uma mensagem.

Não se trata de comparar personagens históricos ou atribuir dimensão religiosa às disputas eleitorais. Trata-se de reconhecer um princípio da comunicação humana: mensagens ganham continuidade quando pessoas assumem sua transmissão como parte de um propósito compartilhado.

A mobilização política contemporânea também pode ser compreendida por essa passagem da audiência à participação.

A experiência de 2026 sugere, portanto, uma agenda de investigação sobre os limites do engajamento digital e a importância da organização territorial. O desafio é compreender como diferentes formas de comunicação se conectam e quais condições permitem transformar visibilidade em participação.

Talvez a questão central não seja escolher entre ruas e redes, mas compreender como as redes podem favorecer encontros e como os encontros podem fortalecer relações que continuam também no ambiente digital.

O futuro da comunicação política será cada vez mais tecnológico. Mas sua dimensão democrática continuará dependendo de algo essencialmente humano: a capacidade de ouvir, dialogar, construir confiança e participar da vida coletiva. A comunicação alcança. A relação aproxima. A organização mobiliza.